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Significados da palavra «libertário»

malatesta-eleio

imagem daqui

libertário adj (1899 cf CF1) 1. que se inspira em doutrinas preconizadoras da liberdade absoluta 2. que é partidário do anarquismo adj s.m. 3. que ou aquele que se guia por doutrinas fundamentadas na liberdade absoluta ou que é preconizador destas (ETIM. Libertar + -ário, por influência do fr. libertaire (sXVIII)

in Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

Não querendo estar a dar lições de Língua Portuguesa a ninguém, mas antes levada a reflectir sobre os significados que cada um de nós atribui a uma mesma palavra, cujo entendimento mútuo resulta as mais das vezes de uma cumplicidade inexplicável que se gera entre os seres, coloco aqui os significados do vocábulo. Claro que não bastam para que nos possamos achar conhecedores de todas as doutrinas que empregaram tal palavra. O que mais importa aqui reflectir é na possibilidade de identificação dos membros deste blogue com o nome que lhe foi atribuído. Cada um terá oportunidade de fazer a sua própria reflexão. Pela minha parte vou partilhá-la com os que aqui vierem:

Na acepção 1., «libertário» é o que se inspira em doutrinas que preconizam a liberdade absoluta. Talvez eu desconheça no todo ou em parte as ditas doutrinas, que trarão consigo toda uma argumentação dos respectivos autores. Mas se de facto preconizam a “liberdade absoluta” então provavelmente desejarão atingir os mesmos fins a que me proponho aqui: postar na mais absoluta liberdade. Isto quer dizer que eu poderei no futuro colocar aqui a frase mais abjecta, reaccionária e conservadora no mau sentido, que vá totalmente contra todas as doutrinas libertárias, porque ao fazê-lo eu poderei estar a desejar provocar um efeito de indignação e contra-argumentação ao nível dos comentários. Poderei estar apenas a querer provocar a vossa indignação. Ou seja, não importa o que coloco, o que importa é a discussão permissiva e aberta que isso vem provocar entre os elementos e os visitantes do blogue. Conclusão: absoluta liberdade de colocar aqui o que eu quiser; absoluta libertade vossa de comentarem como desejarem.

Na 2. o caso torna-se mais específico, pois refere o  “que é partidário do anarquismo”. Aqui surgiram-me uma série de dúvidas: mas anarquista não tem partido, como se pode ser “partidário”? Ser partidário implica tomar partido, no sentido de fazer uma escolha. Eu posso escolher ser anarquista, mas, se eu enquanto anarquista não defendo os partidos políticos, eu não posso ser do partido anarquista, ou posso? Como isto me soa um pouco absurdo e sem saída, vou considerar que se escolhe ser anarquista, e nem me vou chocar nem um pouco em saber que até para se ser anarquista é preciso organização e não deve ser pouca. Costumo dizer um pouco mais por intuição do que por conhecimento científico que na era pós-capitalista, virá uma espécie de socialização (socialismo?), depois as pessoas aprenderão que ainda assim a Humanidade só sobreviverá através da partilha e da divisão de tarefas, não se importando já nessa fase se fulano tem mais ou menos possessões do que cicrano e vivendo desenvolvendo um espírito verdadeiramente comunitário (comunismo?). Claro que neste percurso os seres ganharão mais consciência e responsabilidade, aprendendo a autogerir-se. É no topo desta pirâmide que coloco o meu ideal anarquista. Por isso, eu que não pertenço a nenhum partido, posso ainda assim considerar-me anarquista, ainda que por vezes me sinta bem solitária, até mesmo na forma como entendo a anarquia.

Na definição 3. revejo-me claramente pois procuro guiar-me pela liberdade absoluta, de acordo com os meus princípios e as minhas limitações (que procuro vencer). Não me acho dona de toda a verdade, antes pelo contrário, continuo sempre à procura do melhor caminho para mudar o estado de sítio a que o mundo chegou.

Desculpem-me se me alonguei e se prejudiquei a estética do blogue. Mas tomei a liberdade de partilhar convosco a minha reflexão.

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  1. Marreta
    15 Dezembro, 2008 às 10:01 am

    Está muito bem, sim senhor. Mas só falta saber que é o autor(a) deste texto…

  2. 15 Dezembro, 2008 às 12:51 pm

    Óptimo texto e melhor reflexão. Como não sou muito de palavras díficeis, direi apenas que para mim revejo-me em Libertário – LIBERDADE ABSOLUTA, foi sempre assim que me conheci, mesmo no tempo do fascismo e dentro das limitações conhecidas, tentei sempre manter a minha dignidade como pessoa e nunca limitei a minha liberdade, apesar de por vezes me sair bem caro. Quanto ao anarquismo acho que é o topo da pirâmide quanto à organização duma sociedade, impossível? não há impossíveis, díficil? sim, é díficil atingir tal grau de maturidade. Continuarei sempre na procura da utopia.

    #ferroadas

  3. 15 Dezembro, 2008 às 4:15 pm

    Peço desculpa pelo anonimato que não foi deliberado. A autora fui eu. Abraços

  4. mescalero
    16 Dezembro, 2008 às 10:08 am

    eu acho que libertário e anarquista são sinónimos, embora muita gente discorde. há quem se considere libertário e não anarquista sem que se perceba a diferença. há pessoas que se assumem da esquerda libertária. já aconteceu de falarem na televisão do socratismo como corrente libertária do PS.

    tanto quanto sei o termo começou a ser usado pelos anarquistas franceses do início do séc. XX que se queriam distanciar da onda de atentados contra chefes de estado, a chamada propaganda pelo acto. é usado por movimentos anarquistas em todo o mundo indiferentemente de anarquista ou anti-autoritário, outro sinónimo

    a confusão com o termo ficou maior com o aparecimento dos libertários de direita nos EUA. existe até o partido libertário que para nós na europa são uma espécie de neoliberais na economia e liberais no social. não sei se a correspondência é exacta entre os libertário de direita e o anarco-capitalismo. como nos EUA é que as coisas são boas já muita gente por aqui começou a associar o termo inglês “libertarian” que designa os tais libertários de direita com libertário 🙂

  5. Manuel Baptista
    17 Dezembro, 2008 às 7:53 am

    O significado de um termo ou de uma expressão é dado pelo contexto. É assim em geral, portanto dentro da discussão aqui encetada, que é o do nosso/vosso blogue «o libertário» a análise também deve incluir o contexto.

    Por isso as definições de dicionário, por muito aceitáveis que sejam em primeira aproximação, não chegam.
    Os libertários são -em política- aqueles que advogam a extinção do estado, que o capitalismo e o estado são duas faces de uma mesma moeda, são os que repudiam que a emancipação dos trabalhadores possa advir de uma qualquer «ditadura do proletariado». Igualmente recusam a ideia de que basta reformar os defeitos da sociedade «liberal democrática», ou seja o regime do capitalismo com laivos de democracia, advogam que há necessidade de uma transformação radical e profunda, que designam por revolução social (diferentemente de revolução meramente política).
    Os liberais conformam-se mais com a 1º e 3º definição, portanto seria muito mais apropriado chamar de liberal aquele a quem se aplicam os significados 1 e 3.
    Os dicionários são maus instrumentos de esclarecimento político.

    A confusão de chamar «libertários» aos liberais é-lhes vantajosa, pois eles beneficiariam de uma certa aura de inconformismo, ora os liberais do nosso tempo (não os de há duzentos anos atrás!) são os mais entusiástas defensores do capitalismo e portanto do status quo, para eles … «é preciso mudar muita coisa, para que o essencial se mantenha».
    Existem trotsquistas (uma vertente do marxismo leninismo) que gostam de se auto-crismar de «socialistas libertários», quando efectivamente não o são! Mas nem são os únicos pelas bandas do autoritarismo bolchevique (diferente de comunismo: o comunismo autêntico, é claramente libertário!)
    Inclusive tive conhecimento de uma folha ou jornal da JCP de Setúbal se designava por «o libertário»… o que só pode ser um intencional e inqualificável meio de recrutar jovens, impressionados com o progresso das ideias anarquistas, libertárias, neste início de novo milénio e que estariam assim a ser enganados por outros, como é comum nos bolcheviques, os quais acham que as artimanhas e enganos são «meios legítimos para atingir os fins legítimos». Ou seja, os fins justificam os meios.
    Oxalá este exemplo sirva como contra-exemplo a todas as pessoas que dão o devido valor à integridade intelectual.

  6. 18 Dezembro, 2008 às 2:21 am

    Quanto a mim, os libertários são acratas, defendem uma sociedade onde se exclui a exploração do Homem pelo Homem e, em consequêmcia, as relações sociais baseadas na dominação/subordinação.

  7. 18 Dezembro, 2008 às 2:22 am

    Onde se lê “consequêmcia”, leia-se consequência.

  8. Manuel Baptista
    18 Dezembro, 2008 às 8:51 am

    sim, os libertários verdadeiros são acratas, ou seja, queremos uma sociedade sem escravos e sem amos.

  9. Obsevador
    22 Setembro, 2009 às 11:18 pm

    A liberdade absoluta é uma utopia. ser livre ,e estar condicionado à liberdade do outro.

  10. mescalero
    25 Setembro, 2009 às 9:01 pm

    Observador,

    Mas é precisamente isso a liberdade absoluta: a liberdade condicionada à liberdade do outro.

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