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Pensamentos contra o espírito gregário

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Monthy Python, A vida de Brian, “Sim, somos todos indivíduos.”

Um dos vícios mais nefastos para o relacionamento social humano, que corrói desde tempos imemoriais a associação e o relacionamento saudável entre os indivíduos, é o que faz o indivíduo submeter a sua vontade à do grupo, de forma sistemática e previsível.

Não se trata de fazer concessões pontuais ou de convergir para uma determinada ideia – estes são requisitos necessários para a convivência social – mas da perca da autonomia de pensamento.

Claro que o ser humano é um ser gregário, isto é, social, procura a convivência em comunidade. O instinto gregário está associado ao instinto de sobrevivência. Mas o espírito gregário de que falo é outra coisa.

O espírito gregário opõe-se ao espírito crítico. Este é autónomo, independente, converge quando julga necessário convergir e tem a coragem de se opôr quando não está de acordo. É certo que a união faz a força, mas nenhum espírito crítico põe a força da união à frente da força da razão.

Quando confrontadas estas duas tendências de pensamento, resulta geralmente num desequilíbrio de forças favorável ao gregarismo porque a este estão, naturalmente, agregados outros espíritos idênticos, enquanto que o espírito crítico actua individualmente. É sabido que, pelo menos no imediato, a superioridade numérica conta, talvez mais que a verdade e a razão. Esta oposição existe também no próprio indivíduo, ninguém é totalmente gregário nem ninguém está livre de se ver contaminado pelo acriticismo. Em certa medida torna-se difícil destrinçar onde acaba um e começa o outro.

O espírito gregário costuma adorar encostar-se a um líder ou a uma doutrina que o oriente e o normalize. Líder ou doutrina têm aqui o mesmo papel de transmitir a sensação de segurança e protecção.

Seja num gang, numa seita, num partido, numa família, numa equipa, numa associação, no que for, seja porque há uma decisão a ser tomada, porque há um conflito, estratégias diferentes, há muitos contextos favoráveis à eclosão do gregarismo. Não sugiro que nos defendamos dele tornando-nos eremitas mas que procuremos formas de associação que favoreçam a crítica e repudiem os rebanhos.

O pensamento libertário terá de ser sempre um pensamento crítico, para poder ser livre, permeável à mudança e poder acompanhar e impulsionar a transformação social. O facto de não ser um corpo doutrinário mais ou menos fechado distingue-o das outras correntes de pensamento político.

#mescalero

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  1. 19 Dezembro, 2008 às 4:28 pm

    Muito bom este texto. Realmente este seria o patamar evolutivo de pensamento e acção almejado e ideal. Para lá chegarmos é precisa ainda uma enorme revolução de mentalidades que nos permita a todos deixar de endeusar pastores e por fim trocarmos o manto de lã pela utilidade prática e consciente da nossa massa cinzenta.

    Saudações do Marreta.

  2. Manuel Baptista
    19 Dezembro, 2008 às 10:02 pm

    [enviei um texto através do vosso e-mail, mas como talvez não tenha chegado, aqui o coloco de novo, para postar e discutir convosco!]

    O anarquismo na revolução

    Na realidade, existe uma não pequena confusão sobre o que seja anarquismo. O próprio termo foi usado por vários autores antes de Bakunin, nomeadamente por Proudhon (que não foi o primeiro). Estes estavam conscientes que o termo estava conotado com o conceito de caos, desordem. Porém, eles acreditavam que a negação da «arquia» ou seja do poder, entenda-se do poder político, do poder sobre os outros, se tornaria o sentido predominante. A burguesia, vendo que era uma teoria que acrescentava perigo às «classes perigosas», decidiu estigmatizar o termo como sinónimo da pior desordem social.
    Apesar disso, a realidade dos meados do século dezanove fez com que o anarquismo esteve muito mais próximo das classes populares e inspirou muito mais os revolucionários da Iª Internacional, do que o comunismo/socialismo/social-democracia autoritários, protagonizados por Marx e todos os que consideravam que a formação de partidos, capazes de disputar as eleições e obter deputados nos parlamentos, era a única saída para a classe trabalhadora.
    A primeira revolução proletária, a Comuna de Paris, mostrou ao próprio Marx que a comuna era a forma orgânica de poder popular, um tipo de governo federalista, onde todas as secções estavam mobilizadas para realizar as tarefas da revolução, sob controlo permanente das assembleias.
    Alguns anos mais tarde, em 1905, na primeira grande revolta do proletariado russo, surgiu uma forma de organização, os conselhos de operários ou sovietes, das fábricas em greve, das fábricas ocupadas, inspirada pelos anarquistas russos e que ia beber à comunidade rural tradicional (o Mir) que ainda estava viva neste época e que Kropotkine descreveu. Eram estes os verdadeiros sovietes!
    Após a revolução de Fev. de 1917 estes ressurgiram, uns saindo da clandestinidade, outros organizados pela primeira vez, nomeadamente os sovietes de soldados. Foi uma habilidade de Lenine, maquiavélica, de fazer crer que o partido bolchevique estava com a organização dos sovietes, o famoso slogan «todo o poder aos sovietes», que proclamou após o triunfo do golpe de 7 de Novembro de 1917: foi exactamente o princípio do fim dos sovietes como organismos de organização do povo, do proletariado.
    O último soviete livre, o de Kronstadt, de onde tinha partido a insurreição da marinha, foi afogado no sangue pouco tempo depois, em 1921 (http://www.struggle.ws/russia/mett/background.html).

    Mas os libertários tiveram outras experiências de organização federalista, horizontal, em democracia directa: qualquer revolução ocorrida na Europa, após a revolução russa, recorreu aos conselhos de operários insurrectos: foi assim nas comunas de Berlim e Munique, na república dos Conselhos húngara, biénio rosso italiano, na vaga de greves que acompanhou a vitória do Front Populaire em França e por fim, na revolução espanhola.
    Nestes episódios trágicos, os comunistas autoritários frequentemente tiveram um papel de controlar e depois de abafar esses embriões de poder popular. Eles nunca deixaram que os trabalhadores assumissem uma verdadeira auto-gestão. Eles mantiveram o sindicalismo estritamente ligado a um corporativismo, reaccionário e ineficaz. Negaram e combateram o sindicalismo revolucionário, mesmo quando se auto-proclamavam como tal. Estiveram sempre do lado do poder, pois sempre foram idólatras do poder, apenas usando retórica revolucionara.
    O sectarismo foi sempre o traço dominante do seu pensamento. Fomentaram as divisões sindicais, tornaram difícil ou impossível a constituição de frentes de resistência ao fascismo em crescimento nos anos 20, apenas mudando de táctica quando já mais de metade dos países da Europa estavam com regimes fascistas (nos anos 36-39 a Alemanha, a Polónia, a Hungria, a Roménia, a Jugoslávia, a Albânia, a Grécia, a Bulgária, a Itália, Portugal eram regimes fascistas ou fascizantes).
    Os anarquistas que estavam nos sindicatos foram apelidados de «anarco sindicalistas» pelos leninistas, que pretendiam assim estigmatizar, isolar, apontar do dedo, aqueles que não aceitavam a hegemonia do PC sobre o movimento social e sindical. Os sindicalistas revolucionários autênticos tentaram evitar as rupturas, bateram-se para que houvesse uma frente unida sindical. Porém, os bolcheviques das diversas tendências digladiavam-se como hoje, para ver quem hegemonizava o movimento sindical. Por isso o movimento sindical acabou por ser esmagado, a república espanhola foi esmagada pelos fascistas de toda a Europa e não apenas pelas tropas de Franco. Graças a isso Estaline pode fazer o seu pacto germano-soviético, com a partilha da Polónia como prémio. Assim começou a IIª guerra mundial. O povo russo pagou bem caro a loucura do seu ditador. A destruição que sofreu o povo soviético foi muito maior porque Estaline não queria dar nenhum sinal de que tinha qualquer desconfiança para com Hitler!
    As pessoas são mantidas na ignorância da história dos movimentos revolucionários, insurreccionais, porque não vão procurar as visões menos ortodoxas, aceitam com uma candura impressionante os «clichés» que são propagados pelos livros escolares de História, ou pelas cartilhas dos partidos ditos «operários».
    Se nos debruçarmos para compreender verdadeiramente a realidade desses movimentos insurreccionais, vemos que eles não obedecem de forma nenhuma aos esquemas simplistas que os ideólogos propagam.
    Hoje, igualmente, com a insurreição grega, passa-se a mesma coisa. Os média ao serviço do poder não explicam o contexto, apenas assustam as pessoas com imagens de «violência».

    Manuel Baptista

    Quinta-feira, Dezembro 18, 2008 7:48:00 PM

  3. Peterson Cruz
    15 Junho, 2013 às 11:07 am

    Verdade! No Brasil, (por exemplo) pseudoEstado Democrático de Direito – acontece muito isso; “se deixar tratam como Chandalas os que possuem a criticidade como potencial agregador das diversas variáveis do pensamento.

  4. 12 Abril, 2014 às 2:56 am

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