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Apresentando-me

Sendo, talvez antes de tudo, um incondicional adepto das liberdades, um defensor do direito de cada um expressar, por palavras ou actos, a sua opinião, discordância ou apoio, sem que sobre ele seja exercido, qualquer condicionamento ou limite, a não ser os que decorrem dessa liberdade, provocar nos outros, um efeito limitativo nos mesmos propósitos, a minha primeira preocupação, antes de aceitar o convite para participar n’ O Libertário, foi o de saber se este pressuposto; o meu primeiro pressuposto, o pressuposto da liberdade opinião, sem restrições, estava devidamente protegido. O segundo pressuposto era de saber se o Libertário perseguia alguns objectivos que, enfim, sendo respeitáveis, pudessem não encaixar na forma e no modo, como vejo a intervenção cívica: sem controleirismos, sem dirigismos, sem servir conveniências dissimuladas. Não precisei de perguntar a ninguém. Bastaram-me uns minutos de leitura de alguns dos posts e dos propósitos fundadores, para que qualquer eventual dúvida se dissipasse por inteiro.

Há muitas variáveis que constroem um pensamento e uma postura. A nossa vivência, o nosso trabalho, o meio em que nascemos e convivemos, as circunstâncias da vida, forjaram em cada um de nós, personalidades distintas e sabedorias distintas. Por isso somos diferentes. É no encaixe de algumas destas peças, do puzzle da vida, que se alinham causas idênticas e se juntam as pessoas em volta de certos propósitos. É a esta luz que encontro a explicação para diferentes posicionamentos em questões capitais da organização da sociedade. Ou na forma de estar em sociedade e na vida. Encontrando n’ O Libertário suficientes princípios coincidentes com os que defendo, naturalmente, não poderia recusar o convite para, na medida das minhas disponibilidades e no reconhecimento das minhas limitações, emprestar a esta causa: “denunciar a podridão, combater o cancro da globalização neo-liberal e do capitalismo selvagem, bem como defender os injustiçados e oprimidos da sociedade, num contexto em que o Povo é e será sempre soberano”, todo o meu empenho, opinião e competências.

Neste primeiro post, julgo justificar-se uma breve apresentação: comecei a trabalhar cedo. A nossa casa era o armazém da sucata da minha mãe. Uma mãe sozinha com sete filhos para sustentar e educar. Não havia electricidade. Esse era um “luxo” dispensável. Havia um candeeiro a petróleo ou a acetileno para alumiar. O chão era em terra preta. Ali não havia opções. Havia apenas um caminho; ir trabalhar muito cedo para ajudar o orçamento familiar. Apenas a mim, sendo o mais novo, foi “permitido” ir estudar um pouco mais além do que a 4ª classe. Até ao ciclo preparatório. Depois, fui trabalhar e estudar à noite. Aos 14 anos, em 1969. Como operário naval primeiro e depois como jornaleiro na Portugal Telecom – antes CTT (jornaleiro era aquele que trabalhava “à jornada”; situação que se prolongou até ao 25 de Abril, altura em que fui integrado nos quadros da empresa, como auxiliar de telecomunicações), até me reformar, em 2005, como quadro médio e com o curso geral de electricidade incompleto.

Com o emprego, aconteceram os primeiros contactos com a política e o sindicalismo, ganhando forma uma nova visão sobre as coisas e uma consciência de classe, sustentada nas situações particulares da vida. De repente as coisas começaram todas a fazer sentido. A pobreza, a miséria, as desigualdades, as injustiças sociais, passaram a ter uma explicação. Por essa altura, militei numa organização de extrema-esquerda, a OCMLP, depois na UDP, tendo abandonado a militância partidária a meio dos anos 80. Foi um período muito intenso e de muita entrega a valores que se constituíram como símbolo e bandeira para a vida. Foi um tempo que moldou uma personalidade, edificou valores, forjou o homem que hoje sou.socialism590

Fui e sou um militante político e social. Quer isto dizer que me envolvo nas coisas que me rodeiam. Que não sou um espectador passivo. Estive na fundação do sindicato dos trabalhadores da Portugal Telecom, fui activista e fui delegado e dirigente sindical. Participei no movimento que conduziu à criação da CGTP. Fui presidente, durante 12 anos de uma associação cultural e recreativa dos CTT e estive na fundação do Club Portugal Telecom. Fui o presidente da Festa da Cultura dos trabalhadores dos CTT que reuniu mais de trezentos artistas de várias áreas. Sou membro de algumas associações culturais e humanitárias. Fui o impulsionador de uma jornada por Timor. Fiz parte de movimentos de cidadãos por causas como o Aborto e dou apoio ao movimento contra as portagens na A28. Fui deputado municipal pelo Bloco de Esquerda. Sou arguido por delito de opinião. Não abdico da participação cívica e de uma cidadania exigente. Luto pela unidade das esquerdas e uma alternativa de poder ao bloco central de interesses. Sou, agora, mais sereno, pragmático, conciliador e um defensor da negociação e de consensos. Mas não recuso, a radicalidade, quando estão em causa valores e princípios da dignidade humana. Definir-me-ia politicamente, não fosse contraditório nos termos, como um anarca-comunista, da “esquerda moderada liberal” (segundo um policómetro) e como metas imediatas, no quadro de uma sociedade destes tempos, luto por um Estado social, forte nos serviços públicos e liberal nos costumes. Ah!.. e não sou absolutamente nada …patriota ou nacionalista que para mim, tamanha heresia, significam o mesmo.

# Fernando

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Categorias:Fernando
  1. Marreta
    27 Dezembro, 2008 às 12:09 pm

    Sê muito bem-vindo Fernando e que os teus artigos possam constituir um forte contributo na elucidação dos mais “distraídos” de que o rumo que trilhamos não tem futuro e está caduco, e que novas e frescas alternativas são necessárias para transformar a sociedade em algo mais justo e solidário para todos nós.

    Saudações do Marreta.

  2. libertario08
    27 Dezembro, 2008 às 12:20 pm

    Amigo e camarada

    Que os dedos nunca te doam (para escreveres os teus pensamentos), que a visão nunca te falte (para veres as injustiças), que a voz nunca te esmoreça (para denunciares as arbitrariedades). Por uma sociedade melhor, sê bem-vindo.

    # ferroadas

  3. 27 Dezembro, 2008 às 5:45 pm

    Que nãos nos falte a força para lutar por uma sociedade mais digna e mais justa. Obrigado pelas vossas palavras.

  4. 27 Dezembro, 2008 às 7:01 pm

    “assim se cumpre o signo dos meus dias ir até ao fim da estrada com as palavras coladas aos dedos” – Álvaro de Oliveira – Baladas de Orvalho

    Nunca se deve, nem se pode deixar de lutar…

    Bom post Fernando !

    um beijo

  5. 27 Dezembro, 2008 às 7:05 pm

    temposlivres sou eu
    desculpa tinha entrado com aquele perfil que ja deixou de ser

  6. 28 Dezembro, 2008 às 2:55 pm

    Um post de apresentação muito bem caracterizado.

    Um abraço especial para o Fernando e cumprimentos aos restantes elementos deste interessante blog, a seguir com certeza.

  7. 28 Dezembro, 2008 às 8:08 pm

    Fernando

    Aplaudo a tua vinda. É uma honra ter um companheiro blogosférico com uma vida tão rica. Será sem dúvida uma mais-valia para a nossa luta.

    Um abraço

  8. Fermin Salvochea
    31 Dezembro, 2008 às 2:08 am

    Anarco-comunista não tem nada de contraditório. Bem pelo contrário, essa tem sido a orientação maioritária em termos de posicionamento económico dos anarquistas desde Piotr Kropotkin, Carlo Cafiero e Malatesta, isto ainda no século XIX.
    A orientação anarco-comunista ou comunista libertária foi a tomada pelos anarco-sindicalistas da CNT em Espanha durante a revolução em 1936 e bem antes pelos makhnovista entre 1917-1921, antes da sua capitulação frente aos bolcheviques.

    A palavra comunista pode ter essa conotação terrível dada pelos bolcheviques, mas ela continua a ser um dos pilares do anarquismo, pelo menos do anarquismo de luta de classes ou social.

    Eu defino-me anarco-comunista, acho que isso não devia ser um problema, até é bom que se faça, para que se afaste o espectro que ás vezes vem associado ao anarquismo, como primitivista, nihilista, individualista, existencialista. Assim, dividem-se as águas.

  9. mescalero
    31 Dezembro, 2008 às 4:32 pm

    Fermin,

    Também me parece que não tem nada de contraditório, a questão é que a difusão da corrente comunista não libertária é imensamente maior, o que acaba por fazer a designação “comunista” como seu sinónimo.

    Já a questão do anarquismo se ver associado a outras correntes que não a anarco-comunista ou mais geralmente, de classe, não é para mim problema nenhum nem acho que traga qualquer prejuízo à família libertária. O que essas outras correntes trouxeram ao seu pensamento é fundamental para o seu desenvolvimento e para o desenclausuramento de algumas ratoeiras teóricas (com as suas correspondências práticas) em que o anarco-comunismo por vezes caiu.

  10. Fermin Salvochea
    1 Janeiro, 2009 às 8:44 pm

    Mescalero,

    Quanto ao primeiro parágrafo, concordo em pleno…

    Quanto ao segundo discordo…

    Geralmente as ditas novas correntes, em boa verdade têm muito pouco a ver com o movimento anarquista iniciado pela acção de Bakunin e seus companheiros a partir da I internacional. A única, coisa em comum é que defendem a destruição do estado, e a destruição de qualquer forma de organização, falo particularmente dos primitivistas (que por si só usam argumentações antropológicas falseadas) e individualistas pós-modernos. Os anarquistas nunca foram contra a organização, bem pelo contrário, defendem uma organização social, política, baseada na democracia directa e na rotatividade e revogabilidade imediata dos delegados, bem como uma organização económica orientada e planificada para as necessidades sociais.

    Estas nova correntes, a meu ver, não trouxeram nada de benéfico ao anarquismo, nem em termos de discussão, nem em termos de propostas sociais, nem tão pouco nas formas de militância social. Bem, pelo contrário, trouxeram um culto de desorganização, subculturismo, algum egocentrismo, e nessa linha pouca abertura para o debate de ideias.

    Anarquismo, sempre se pautou por ser uma alternativa social, politica e económica, com propostas, com inserção social e solidariedade. Nenhuma destas ditas novas correntes, carrega alguma destas características, ao contrário das correntes sociais, seja o anarco-comunismo ou o anarco-sindicalismo, ou até o ecologismo social. Não é por acaso, que em Espanha, México, Chile, Grécia e França, o anarquismo tem alguma força, isto porque sabem organizar-se, sabem definir uma estratégia, têm propostas e estão presentes nas lutas sociais, ou seja carregam o gérmen do legado já secular da tradição de luta e reflexão do anarco-comunismo e anarco-sindicalismo.

  11. mescalero
    2 Janeiro, 2009 às 2:45 pm

    Fermin,

    Estamos realmente em desacordo. Se há ponto que me faz identificar com o anarquismo é o seu carácter aberto e a possibilidade que permite de aparecerem novas formas de expressão e vivência desde que em conformidade com os seus princípios básicos. Repara que a crítica que fazes às outras correntes não implica a transgressão desses princípios. A forma de organização ou a falta dela é da inteira responsabilidade dos envolvidos, se os primitivistas querem destruir a civilização terá que haver espaço não civilizado para eles num mundo libertário. Se os individualistas põem o indivíduo acima do colectivo e acreditam na “união de egoistas” de Stirner, também terá de haver espaço para eles. E por aí adiante.

    O que me parece é que nenhuma corrente tem os seus fundamentos teóricos bem sólidos ainda lhe faltando muito para que possam oferecer uma visão consistente da vida e da revolução social. Juntas colmatam algumas dessas falhas. Também em termos de organização e capacidade de acção o meio libertário tem beneficiado da sua diversidade que, apesar das divergências e conflitos constantes, quando chega a hora H sabe actuar em conjunto contra os seus verdadeiros adversários. O caso actual da Grécia é exemplo disso. Pelos vistos tem, proporcionalmente, o maior movimento anarquista do mundo. Os seus diversos grupos vivem em desentendimentos e voltares de costas com cisões e acusações de autoritarismo, e no momento em que é preciso, está tudo na rua a lutar pelo mesmo.

    Acho que, no extremo, a rejeição da pertença ao círculo libertário dessas correntes é uma forma de purismo que, essa sim, vai contra a ideia base do anarquismo de autonomia e não autoritarismo. O pós-anarquismo pretende resolver muitas destas questões filtrando o melhor de Bakunine, Zerzan, Bookchin, dos pensadores pós-estruturalistas e muitos outros, incluindo filósofos como Nietszche (que nos chamava de cães anarquistas) e marxistas como Negri. Vamos ver o que sai daí.

  12. 17 Maio, 2010 às 3:36 pm

    Visite:

    http://erreserrantes.blogspot.com/

    Palavras corrosivas e muito senso crítico.

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