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Andamos a brincar aos Obamas ou quê?

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O fenómeno Obama tende a tornar-se numa paranóia global. Na SIC notícias aparece a dada altura um empolgante anúncio a Obama, o novo presidente dos EUA, cuja sucessão de imagens e a música gloriosa chegam a contagiar os mais imunes à propaganda. A mim, confesso, provoca-me uma reacção contrária à desejada, como aqueles comerciais que de tanto se repetirem num mesmo intervalo chegam a dar náuseas, a mudar de canal ou, em últimas consequências, a rejeitar o próprio produto que se deseja vender. Admito porém que pessoas como eu são a excepção e que a regra é mesmo contagiar as massas, levando-as a consumir produtos como a consumar a ideia de que sim, nós podemos mudar o mundo. Os próprios partidos políticos, condutores de massas, já se aperceberam da eficácia do fenómeno e, a meu ver desastrosamente, já se apropriaram da frase utilizando-a na sua propaganda partidária. A primeira vez que achei a frase verdadeiramente ridícula foi na manifestação dos professores de 8 de Novembro, quando algum iluminado que discursava na tribuna sindical da Praça do Comércio, às tantas larga um Sim, nós podemos! logo seguido do grito colectivo: sim, nós podemos. Hoje, quando ia a caminho de mais uma concentração de professores, em frente à Presidência da República, reparei nos outdoors do PCP relativos ao desemprego: lá estava a frase contagiante para muitos, enjoativa para alguns: sim, nós podemos!
Entretanto, na mesma noite em que, após vermos o tal anúncio-Obama da Sic Notícias, nos interrogávamos sobre as causas e os efeitos de tamanha loucura colectiva, ponderando que interesses à escala mundial estarão por detrás de tamanha campanha, foi com surpresa que no dia seguinte ao ouvir a TSF alguém referia a mesma interrogação formulada na noite anterior por José Saramago. A desconfiança nesta euforia colectiva será sintoma dos bem-pensantes? Estarão realmente todos confortavelmente cegos enquanto apenas alguns conseguem ver que o quadro global não é de modo nenhum convidativo à esperança e à mudança enquanto artificialmente continuarem a segurar o morto-vivo que é hoje o Capitalismo. Ainda ontem, num debate acalorado sobre a crise do capitalismo, dei por mim a pensar na facilidade com que todos concordaram que o sistema comunista faliu, com a falência da URSS e a almejada queda do Muro de Berlim, mas agora ninguém admite a falência explícita do sistema capitalista.
Por todos os meios, e através do fenómeno-Obama, tentam “vender” aos povos uma ideia de esperança e de possibilidade de mudança. Isto numa altura em que o capitalismo global está feito num caco, preso por fios pútridos que só não se rompem porque os governos não os deixam romper, injectando enormes somas de capitais precisamente nas entidades mais responsáveis por semelhante catástrofe financeira. Perguntamo-nos: donde surgiu de repente tanto dinheiro para dar aos bancos e às maiores empresas? Será todo o dinheiro desinvestido nos serviços sociais, economizado pelos Estados nos actos de desmantelamento e esvaziamento dos serviços de utilidade pública, como é o caso mais gritante da saúde e da educação? E como superar a estrondosa contradição que ressalta entre a crise global cuja factura nos dizem que todos teremos que pagar e o convite que nos lançam ao optimismo e à esperança num suposto mundo melhor na era Obama, a “sugar mountain” dos nossos tempos? Voltando sempre à alegoria de Orwell, que novos porcos ainda veremos assemelharem-se nos actos a outros porcos que lá estavam antes? Novos rebanhos já se organizam gritando a uma só voz: “Yes, we can!” “Yes, we can!” “Sim, é possível!”

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#Kaótica

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  1. Paulo Jorge Gomes
    25 Janeiro, 2009 às 1:52 am

    Primeiro: acalentar esperanças pelo facto de Obama ter sido eleito não tem nada de condenável. Pelo contrário, perfeitamente legítimo e compreensível.

    Segundo: sim, os órgãos de comunicação social “folclorizam”, romanceiam o fenómeno Obama. E obviamente aproveita a quem deve. Mas isso não retira a presidência Obama como autêntico fenómeno – quer pela forma como chegou ao poder (contrariando todos os prognósticos), quer pelo CV de Barak.

    Terceiro: ou se tem carisma não se tem. Obama, tem. Sabe dizer uma oração sem um erro (não se lembra do seu antecessor?), tem um sorriso genuíno, e simboliza o verdadeiro “american dream”

    Quarto: dizer que «tentam “vender” aos povos uma ideia de esperança e de possibilidade de mudança» é puro cepticismo. Bolas, então qual a alternativa? De que nada pode mudar? O próprio Obama já reconheceu dificuldades. Mas se não é nos E.U.A que as coisas devem começar a mudar é por onde?

    Quinto: o plágio não é imputável a Obama. Mais: se vale a pena ser plagiado, por alguma razão é. “Sim, nós fizemos”, é agora o mote.

    Sexto: falência do capitalismo. Concedo, mas distinguo: “deste” capitalismo. Outros há, tal como há versões mais “hardcore” do socialismo. Uma questão de género, e não de grau – é curioso, foi o capitalismo que o autor deste blog critica que lhe permite estar aqui a escrever, a partilhar as suas ideias. O capitalismo deu-nos muito, do bom e do mau. Fala-se da próxima etapa, o “comunitarismo”. Não sei isso o que é, nem niguém ainda o explicou.

    Concluindo, partilho parcialmente de algumas das críticas, mas genericamente a posição do autor do “post” é puro pirronismo.

  2. wehavekaosinthegarden
    25 Janeiro, 2009 às 4:15 am

    Só alguns comentários ao comentário do Paulo:
    Primeiro: Acalentar esperanças não é um mal, mas viver só delas pode levar a grandes desilusões. A realidade pode ser bem cruel.
    Segundo: É claro que para a comunicação social esta eleição foi uma espécie de “conto de fadas”, mas sabendo quem a controla e que só promovem quem os donos autorizam não deixa de ser relevante toda esta histeria.
    Terceiro: É realmente uma figura com carisma, mas também com muito dinheiro para o promover. De onde veio?
    Quarto: A questão é se realmente há vontade de mudar e, se a há para onde e como. As soluções que apresentam nada mais são que a continuidade daquilo que sempre existiu.
    Quinto: Plágio ou não plágio é pouco importante quando se plagia o vazio.
    Sexto: O capitalismo deu muito a alguns e muito pouco a outros? Querer afirmar que é a unica solução possivel é no minimo redutor da inteligência humana

    Concluindo, sem questionar a realidade que nos apresentam dificilmente poderemos ganhar um futuro que desejamos.
    #Kaos

  3. mescalero
    25 Janeiro, 2009 às 2:19 pm

    kaótica,

    Li algures que o PC já usava esse slogan algum tempo antes dele ter aparecido na campanha de Obama. Já não me lembro dos pormenores.

  4. 26 Janeiro, 2009 às 12:12 am

    Mescalero

    Nesse caso espero que o Obama tenha pago os direitos de autor ao PCP!

  5. 26 Janeiro, 2009 às 2:33 pm

    Com Obama ou sem Obama, os ricos continuarão a sêlo; a pobreza, a miséria, a percariedade, o desemprego, a corrupção, a pedófilia, continuará, e isto porque meus amigos, só mudaram (algumas) moscas, a podridão ficou.

    Abraço

  6. Paulo
    26 Janeiro, 2009 às 6:59 pm

    Réplica ao WeHaveKaosInTheGarden:

    1.º De acordo. Poderiamos discutir gnoseologia, racionalismo vs. empirismo e por aí fora… Em todo o caso, se “o seonho comanda a vida”, e enquanto não se paga imposto, deixe-nos sonhar s.f.f.

    2.º Para a histeria nunca há justificação, de acordo. Mas por que só se admite a histeria (ainda que tacitamente) depois dos “ídolos” já terem desaparecido?
    Não partilho da sua teoria conspiração. É verdade que o 4.º poder consegue derrubar e erguer governos. Mas também aproveita tendências, e a que existe é a de glorificar o símbolo, mesmo que ele ainda não tenha feito nada (e já fez, bastando ganhar as eleições). Praticamente não vejo televisão e só esporadicamente oiço a rádio (opção pessoal). Prefiro informar-me pelos jornais. E ainda assim estou entusiasmadíssimo com Obama. Culpa dos media que não vejo nem oiço?

    3.º Quanto ao dinheiro para o promover, então não se lembra da enorme campanha de angariação de fundos nas primárias? Memória curta, ou tendencioso esquecimento?
    Acredite ou não, 50 dólares foram meus (doação on-line), embora devolvidos por não ter nacionalidade estado-unidense. Imagine agora os restantes cidadãos nos e fora dos E.U.A e compare com a massiva participação nas eleições e com os resultados do OBAMA. Adicione um ou outro mais endinheirado e faça as contas por alto. Os zeros à direita crescem com facilidade. Experimente.

    4.º Discordo. Se o próprio OBAMA já admitiu um retorno a Keynes, não é seguramente do mesmo que existiu nos últimos 30 anos, sensivelmente. Se já mandouo encerrar Guantanamo, não é uma mudança?
    Dir-me-á: ainda assim mais do mesmo. Qual é o “mesmo” de que estamos a falar?

    5.º Plagiar o vazio. Essa é que não percebo, definitivamente. Um mote que guiou milhares de pessoas e que sem dúvida vai ficar nos anais da história tal como o “sonho” de Luther King ou a “pergunta” certa de Kennedy, é considerado por si como vazio. Está bem. Magister dixet.

    6.º Nunca disse que era a única solução possível, foi você. Na minha opinião, é um pouco como disse Churchill sobre a democracia: o capitalismo é a pior alternativa, excepto em relação a todas as outras. Mas se tem outra opção (melhor, entenda-se) faça o favor de a dizer. Estou curioso.

    Questionar sim, não me interprete mal. Não sou situacionista. Mas daí ao criticar por criticar, apenas para ser do contra, a distância é curta. Acredite, não sou situacionista, embora me possa julgar assim. Vai uma prova? http://cidadaoangrense.blogspot.com/2009/01/escatologia-de-bolso-ler-mais.html

  7. Paulo
    26 Janeiro, 2009 às 7:17 pm

    Pelo desculpa.

    Só agora “passeei” pelo vosso blog, e reparei que está ideologicamente orientado. Não tem mal nisso. O erro é meu.

    Mas perguntei-me de imediato: quantos participantes aqui já leram o “Banqueiro Anarquista” de Pessoa?

  8. mescalero
    27 Janeiro, 2009 às 9:50 am

    Eu li, mas o Pessoa estava completamente por fora. Teria que dar outras provas se quisesse escrever, por exemplo, aqui no libertário 🙂

  9. Paulo Jorge Gomes
    27 Janeiro, 2009 às 2:43 pm

    A título de curiosidade (sim, porque sou curioso): quem é que está por dentro?

  10. mescalero
    27 Janeiro, 2009 às 3:25 pm

    Os anarquistas, claro. Mas agora quem ficou curioso fui eu. A anarquia é assim tão complexa que é estranho alguém estar por dentro?

  11. Paulo Jorge Gomes
    28 Janeiro, 2009 às 5:05 pm

    Mescalero.

    Por incapacidade minha, admito, não compreendo como é possível o anarquismo («ana» – sem; «arkhía» – autoridade) impor-se como grupo, grémio, alternativa ao não-poder. Parece-me uma contradição nos próprios termos.
    Não que seja apologista do autoritarismo, não me interprete mal. Mas também nunca fui à bola com Rousseau, pois não me apetece voltar andar em quatro patas.
    Do mesmo modo, o anarquismo, enquanto tese, padece de todos os vícios do marxismo e ainda consegue ter vantagem. O anarquismo é platónico, metafísico. Ultrapassa a barreira do praticável e até do verosímil.
    Acredito na crítica, mas não no anarquismo (embora conceda que muitas das críticas anarquistas são perfeitamente válidas. Mas daí à aceitação da tese vai um abismo, do mesmo modo que aceitar algumas das teses socialistas ou individualistas não redunda em ser-se socialista ou individualista).
    A não se que se conceba o anarquismo na versão «light» de SIVA VAIDHYANATHAN (The Anarchist in the Library, Basic Books, New York, 2004). Mas o que esse autor apelida de anarquismo eu qualifico de pensamento crítico que só por si é anárquico. Mas não como «sistema» (sistema anárquico….outro paradoxo).
    A anarquia não é complexa, é um «non sequitur». Não defende qualquer “destruição criativa”, mas tão só assenta num ou noutro postulado filosófico escolhido «à la carte», quiçá numa constatação história fugaz, ou em psicologismos, seja qual for o critério, os quais têm como denominador comum a confusão entre «evolução» e «revolução»; «autoridade» com «autoritarismo», «capital» com «capitalismo», e por aí fora.

    O anarquismo não é complexo. É confuso desde o seu nascimento.

    Obviamente, não espero convênce-lo(a), nem é esse o meu propósito.

    Cumprimentos.

  12. mescalero
    28 Janeiro, 2009 às 8:10 pm

    Paulo Jorge Gomes,

    Não há contradição nos termos. É preciso ver que “sem autoridade” refere-se à inexistência de um chefe, e não à posse da autoridade, que essa tem sempre que estar na posse de alguém. A anarquia é a autoridade estar na posse do indivíduo, só isso. Rousseau e anarquia pouco se cruzam, é claro que os primeiros anarquistas foram influenciados pelo iluminismo, Bakunine considerava o essência do homem como sendo boa e livre e que era preciso destruir tudo o que o impedisse de voltar a esse estado. São influências datadas, muita água já passou entretanto por este moinho.

    O marxismo lá terá os seus vícios mas apontar ao anarquismo os mesmos que o marxismo não é minimamente justo. Os anarquistas sempre se bateram contra a ditadura do proletariado, a conquista do poder de Estado e a criação de vanguardas e burocracias. Foram perseguídos e mortos pelos herdeiros de Marx.

    Platónico ou metafísico também não será (no sentido de utópico?). A história regista inúmeras experiências anarquistas que, ao contrário das implementações das outras teorias políticas, à esquerda e à direita, não causaram as mesmas desgraças, as mesmas opressões, a mesma pobreza. Se há aspecto em que o anarquismo está em clara vantagem é no histórico. No presente temos também o anarquismo bem vivo em inúmeros colectivos e ateneus, em sindicatos revolucionários, em comunidades igualitárias, nos diversos movimentos sociais e nas lutas em geral. Platónico? Os jovens anarquistas gregos mostram que não, e acredite que eles sabem bem a diferença entre evolução e revolução, autoridade e autoritarismo, capital e capitalismo e por aí fora. Temos uma tradição imensa atrás de nós, temos as mais justas reivindicações, temos os processos políticos mais avançados. Só não temos é gente suficiente do nosso lado, e a nossa forma de actuar não passa por nos constituirmos numa vanguarda. Por isso eu assumo que quero convencer, estou aqui também para isso.

    cumps

  13. Paulo Jorge Gomes
    28 Janeiro, 2009 às 9:31 pm

    Mescalero.

    Por aquilo que diz, em bom rigor somos todos anarquistas. Mas então temos de precisar o conceito e separá-lo dos outros, caso contrário ninguém se entende. Lá por ser crítico não me considero, nem de perto nem de longe, um anarquista. Qual o significado do signo “anarquia”?

    Admito (já aqui disse) não compreender a tese anarquista por exclusiva inépcia minha, quiçá por falta de (in)formação. Do que aprendi, o «anarquismo» defende, na sua essência, a abolição de qualquer autoridade, um chefe, como queira chamar. Isso pressupõe necessariamente acreditar na sã convivência das massas, leia-se: na sua racionalidade, quando a história demonstra que as massas são tudo, menos racionais – que o diga Goebbles com a sua “mentira à nausea…”. Kenneth Arrow também explicou isso muito bem, na sua Teoria da Escolha Pública, pelo que voltamos a Rousseau e a Locke?

    Falou-me de exemplos em abstracto, mas não me citou um. Sem querer cair na injustiça da parte pagar pelo todo, quantas comunidades “anarquistas” conheceram o sucesso, que não seja a mera fugacidade de colónia de férias? Afasta, suponho o gregarismo dos quakers, ou a libertação sexual ( leia-se: fornicanço sem fronteiras) de algumas colónias, correcto?

    Tenho a maior simpatia por muitos autores rotulados como anarquistas (para além dos que citei, Chomsky é outro dos que simpatizo). Mas não os vejo assim, como anarquistas, antes como pensadores, cépticos (na acepção filosófica do termo) perante o conformismo do inevitável. Nesse sentido, Voltaire, Popper, Taleb, Keynes, e porque não Kunh ou Gödel?, etc., foram anarquistas – mas ninguém os apelidirá disso, precisamente pelo conceito em causa. Até mesmo Descartes seria anarquista, o que é ridículo. Separemos as águas.

    A comparação com o marxismo foi a título de exemplo e não em sinonímia, e concordará se ler o que escrevi no devido contexto. Os erros do marxismo (enquanto tese) são, na minha óptica, os mesmos do anarquismo (igualmente enquanto tese, ou talvez como antíntese, anti-tese), isto é, padece da mesma incredulidade, não são minimamente exequíveis ou realistas.
    Do mesmo modo que não é a história da Santíssima Trindade, da Virgem Maria, ou do Papa como mandatário do poder divino – mas há quem acredite, e não são poucos, como sabe.
    Mesmo que cada “ismo” se situe nos antípodas de um outro, a minha comparação parece-me, pois, perfeitamente enquadrada (também o «capitalismo», na sua versão hardcore, espúria à mão invisível de Adam Smith, é susceptível de padecer da mesma acusação: é inexequível).

    O que se passou na Grécia foi, desculpar-me-á a comparação, um motim de arruaceiros, com uma causa velada que não lembra ao diabo de corno mais manso. Do mesmo modo, o recente post sobre o “anarquista” que “pediu” dinheiro aos bancos para o não pagar significa, perante os meus (primitivos) valores, nada mais do que um “furto”. Um ladrão, pois (não é que tenha pena do sistema bancário, simplesmente não vejo como um acto errado poderá justificar outro acto errado). Pergunto-me o que fez ele com o dinheiro? Doou-o?

    Prefiro o “larvatus prodeo”, o avanço sobre disfarces. Mudar as coisas por dentro, com os pés assentes na terra, leia-se: sem platonismos.

  14. mescalero
    29 Janeiro, 2009 às 12:44 am

    Paulo Jorge Gomes,

    Eu também me assumo crítico, e julgo que haverá pensamento crítico em (quase) todos os quadrantes políticos e ideológicos. A questão, a meu ver, será: crítico de quê? Do ponto de vista libertário a crítica é antes de mais dirigida à dominação, ao autoritarismo. A conclusão anarquista quanto a esta questão é a rejeição de todo o tipo de dominação, desde o poder político, ao económico, ao religioso, ao inter-relacional, racial, de género etc… Isto marca desde logo uma diferença fulcral com qualquer outra teoria política. Neste aspecto penso não haver confusão. Somos os únicos a rejeitar a política por representação, a qualquer nível e somos os únicos a rejeitar os mecanismos capitalistas de produção e consumo (isto se considerarmos que o que é habitualmente conhecido por comunismo é na verdade “capitalismo de Estado”). Não me parece que se possa dizer que todos os críticos sejam anarquistas. É anarquista quem é anti-autoritário, ou seja, quem rejeita a autoridade de outrém sobre a sua pessoa contra a sua vontade. Votar para as legislativas por exemplo, é então uma acção arquista (que aceita a autoridade), porque pressupõe a eleição de um representante que durante um período de tempo vai passar a tomar as decisões pelos representados.

    Agora vem a parte difícil: “a sã convivência das massas”. O meu primeiro argumento é de princípio e não de ordem prática: sejam as massas racionais ou irracionais a liberdade deve sempre imperar, mesmo para as más decisões. Um argumento muito forte que o Chomsky utiliza vai neste sentido: a obrigação de provar a necessidade de instituições com poder sobre o indivíduo está do lado de quem as defende e não de quem as rejeita.
    O segundo argumento parte da constatação óbvia que o ser humano é fruto das suas circunstâncias, é irresponsável (prefiro a irracional) se as decisões não dependerem directamente de si mas de representantes, nem lhes for dado espaço de intervenção e discussão, que é a situação que temos actualmente nos processos de decisão. Será tendencialmente mais responsável se o processo de decisão passar pelas suas mãos, se tomar as decisões por suas.
    Um último argumento é que numa anarquia pode haver também formas de controlo e até de coacção, desde que aceites em consciência pelos interessados e que não se transformem em mecanismos de dominação.

    Quanto aos exemplos, temos os históricos da revolução espanhola e dos camponeses ucranianos, que não serei a pessoa mais indicada para discutir. Há inúmeras comunidades cuja longevidade não premite enquadrá-las numa categoria de episódicas. Christiania é uma cidade autogestionada dentro de outra cidade, em Copenhaga na Dinamarca. Redes de aldeias comunitárias, eco-aldeias, espalhadas por todo o mundo. Em vários países os sindicatos revolucionários são a concretização prática e efectiva das ideias anarquistas, como na vizinha espanha o é a CNT.

    Dos casos que citou (Voltaire, Popper, Taleb, Keynes, Kunh, Gödel) não tenho conhecimento que algum se tenha denominado anarquista, mas há outras figuras importantes que o fizeram ou com quem os anarquistas poderiam facilmente se identificar: Camus, Kafka, o fotógrafo Cartier-Bresson, o antropólogo Pierre Clastres, Henry David Thoureau, Tolstoy, os escritor e dramaturgos Antonin Artaud e Dario Foe, o músico John Cage, Raoul Vaneigen, etc. etc. etc.

    Na Grécia não está a haver apenas vandalismo, isso é o que os média corporativos passam, mas felizmente a informação que temos hoje em dia é bem mais vasta, a internet neste aspecto é uma excelente ferramenta de contra-informação. Um dos princípios estruturantes do anarquismo é a acção directa, não intermediada, em que os interessados tomam à sua responsabilidade a acção política. Em grande parte é isso que está a acontecer na Grécia. Uma luta social, uma contestação generalizada, uma acção política de massas mas feita directamente pelos interessados.

    Por fim, o caso do insubmisso bancário. Sim, ele doou a grande maioria do dinheiro aos movimentos sociais e transformadores. O problema aqui é a lei e a sua legitimidade. Como os anarquistas não reconhecem legitimidade às instituições, logicamente também não a reconhecem à Justiça e ao Direito. O problema como foi posto por Foucault parece-me correcto, originalmente a lei tem de ser lei de alguma coisa, é a lei do Estado ou da soberania, ou seja, o que confere legitimidade à lei é o Estado. Mas o Estado, por seu turno, precisa da lei para ser legal, para se legitimar. É circular. Mas ainda assim prefiro a abordagem simples, os indivíduos é que devem decidir sobre se desejam e quais leis desejam. Neste momento o que temos são noções sobre o que é o Direito e precisamos sempre de profissionais como intermediários com ele.

    cumps

  15. Paulo Jorge Gomes
    30 Janeiro, 2009 às 8:01 pm

    Mescalero.

    Apraz-me lê-lo, digo-o sem ponta de ironia. Mas felizmente ou não, ainda não me convenceu.

    Talvez pela minha formação e preferência pelos analíticos. Prefiro uma racionalidade prática a um idealismo contemplativo. Situo o anarquismo (entre outras) nesta última categoria, na medida em que descura do homem enquanto produto histórico. A autoridade (e não o autoritarismo) não foi sempre uma condição necessária às relações sociais? Começando desde pequenino? Então um puto educado não pressupõe um modelo no qual reveja algum tipo de autoridade? Piaget e outros tantos está errado, depois de tanta prova e estudo?
    Como podem as relações sociais serem transpostas para relações individuais? Cuidado, não vale invocar o meu exemplo anterior, pois naquele caso estamos a falar de autoridade; neste agora, na transposição das relações individuais, do “flower power”, para o domínio social. Então como é que se definem conceitos tão básicos como “interesse público” se tudo é de todos e nada é de ninguém, na medida em que o que é melhor para todos nem sempre é o melhor para cada um e vice-versa?

    Quanto à questão difícil, discordo, obviamente do princípio de que parte. Como se trata de ideologia, de uma crença, sem qualquer fundamento de ordem prática, como honestamente admitiu, e nada tem de racional, são justificações bastantes para a não as considerar.
    Quanto ao segundo argumento, voltamos a Rosseau. Igualmente, uma crença sem fundamento, refutada ao longo da história, e que pouco mais vale a não ser pelo que não diz.
    Mas ninguém impede que se continue a acreditar no Pai Natal, obviamente.

    Relativamente aos exemplos que me deu, desconheco-os. Mas volto a sublinhar o que disse: não é o facto de existir colónias de férias de sexo livre, ou de fanáticos religiosos, que me convence que o sexo livre e o fanatismo religioso é bom como princípio. Do mesmo modo que não é a existência de comunidades de índole anarquista que demonstra que o anarquismo é de facto um sistema (raio de paradoxo) exequível.
    Peca no vício da amostra (e algum vez o anarquismo foi para além de uma comunidade relativamente pequena?).

    Já li e gostei de alguns dos autores que citou, a saber Camus, Kafka, Thoureau (a Desobediência Civil está mesmo na prateleira à minha frente) e até “ouvi” o célebre 4’33” de Cage (digamos que um trabalho sobre o dito até me valeu uma boa avaliação). Em todo o caso, não vejo como a Desobediência de Thoureau defenda o anarquismo. Defende precisamente a desobediência contra o Estado tirânico, em particular a pena de morte. Dizer que «o melhor governo é o que menos governa» não significa a apologia da supressão do governo. Tal interpretação é ir para além do texto. É por isso que ele diz que «com um governo que prende alguém injustamente, o lugar de um homem justo é na prisão». Mas contextualizemos, caro Mescalero.

    Quanto à Grécia, mesmo admitindo deturpações dos media (que as há, há sim senhor) não alinho na teoria da conspiração.

    Quanto ao Robin dos Bancos, menos mal se o doou (gostaria de saber quem são esses “movimentos sociais e reformadores”…palavras demasiados vagas e indeterminadas para meu gosto, mas deixemos isso). Em todo o caso, não desculpa, quanto a mim, a acção.

    Foucault não li, mas do que me diz lembra-me os aparelhos ideológicos de Loius Althusser. Também aprecio o estruturalismo…mas prefiro ainda mais o descontrucionismo de Lipovetsky, Derrida ou Baudrillard. Se os classificar de anarquistas, eu também o sou. Mas volto ao mesmo: considero-os cépticos.
    Talvez mais uma questão de grau do que de género.
    Admito a dúvida.

    Cumprimentos.

  16. mescalero
    1 Fevereiro, 2009 às 4:47 pm

    Paulo Jorge Gomes,

    Não tenho a pretensão de o convencer. Se conseguir criar algumas dúvidas já me dou por satisfeito.

    Vamos lá às objecções.

    “O anarquismo rejeita o homem como produto histórico”. O anarquismo é um dos herdeiros da história das lutas, que será tão antiga como a primeira tentativa de usurpação do poder. Não dos conflitos dos contos fantásticos, dos heróis e dos reis e das intrigas palacianas, mas dos conflitos reais, das batalhas sangrentas, das reivindicações concretas, dos protestos, das sublevações e das resistências. É neste sentido que o homem é um produto histórico para o anarquismo.

    “A autoridade (e não o autoritarismo) não foi sempre uma condição necessária às relações sociais?”
    Sim, já falamos disso em cima. Não se pode acabar com a autoridade e com o poder, o que se pode é encontrar uma forma melhor de relacionamento social e a proposta do anarquismo para conseguirmos isso é combater a dominação. A dominação existe, em termos demasiado sintéticos, porque o poder e autoridade estão concentrados em alguns indivíduos; mesmo em democracia, contando com o desinteresse e a desresponsabilização da grande maioria. Desinteresse e desresponsabilização que não existe por obra e acaso do destino, mas que é encorajada pelo sistema político que temos. Votar de quatro em quatro anos sem um debate público profundo não é democracia, é engano e ilusão. A anarquia pode ter como concretização a democracia directa e participativa.

    “Então um puto educado não pressupõe um modelo no qual reveja algum tipo de autoridade?”
    A pedagogia libertária tem muito trabalho desenvolvido, quer teórico, quer prático. Ver o caso da Escola da Ponte em VIla das Aves com princípios não-autoritários, ou a Paideia, a escuela libre, dois exemplos aqui bem próximos.

    “Então como é que se definem conceitos tão básicos como “interesse público” se tudo é de todos e nada é de ninguém,”
    Não será propriamente assim. O meios de produção terão que ser colectivos mas não a propriedade individual. O interesse público pode ter a mesma definição, a grande diferença está em que será o conjunto do “público” a decidir sobre o que o interessa directamente, ao invés dos políticos profissionais.

    Quanto à questão difícil (“a sã convivência das massas”) queria fazer uma rectificação. Sim, é verdade que o meu primeiro argumento não é de ordem prática, mas também não é uma crença. É um princípio, uma opção, uma escolha. Há razões factuais e de ordem prática para que se tome uma opção de princípio pela não-dominação.
    Não é um retorno a Rousseau porque os meus argumentos não são essencialistas, não estou à procura de nenhuma essência humana que seja livre e mereça ser potenciada. Constato que o ser humano é um fruto das suas circunstâncias, o que é completamente pacífico.

    “e algum vez o anarquismo foi para além de uma comunidade relativamente pequena?”
    A Makhnovitchina, o exército ucraniano que combateu quer os bolcheviques russos quer os czaristas, chegou a contar com 25.000 homens nas suas fileiras, organizava-se com princípios anarquistas.
    A CNT espanhola chegou a contar com 2 milhões de trabalhadores sindicalizados e isto tudo com trabalho voluntário.
    Christiania tem, se bem me lembro, 8 mil habitantes, vivendo comunalmente.
    Outro exemplo poderiam ser os municípios autónomos construídos pelos zapatistas, os Caracoles, uma aproximação às formas de organização anarquista.
    São exemplos de alguma dimensão, não apenas pequenos grupos.

    O Thoreau não falava apenas de um governo que governasse pouco, ele defendia mesmo o não-governo.
    “Aceito com entusiasmo o lema “O melhor governo é o que menos governa”; e gostaria que ele fosse aplicado mais rápida e sistematicamente. Leva­do às últimas consequências, este lema significa o seguinte, no que também creio: “O melhor governo é o que não governa de modo algum”; e, quando os homens estiverem preparados, será esse o tipo de governo que terão.”
    Do início do Desobediência Civil.

    Sobre a Grécia e os média não há uma teoria da conspiração. Nada é feito conspirativamente, mas às claras. É uma questão de orientação ideológica, do jornalismo cumprir a função que lhe foi atribuída. É aqui que devemos fazer valer o nosso espírito crítico. Porque é que as reportagens são sempre feitas nas costas dos anti-motins? Porque é que o único tema é a violência quando tanta coisa de interessante se está a passar? Porque é que não passam os comunicados dos grupos insurgentes? Porque não falaram nas ocupações? Porque é que não passaram a informação de que a polícia e grupos fascistas destruíam e promoviam a destruição, principalmente de alvos que provocariam a indignação da população, como os pequenos negócios, por exemplo. Isto está documentado, fotografado, filmado, testemunhado. Porque é que não deram uma contextualização histórica da violência policial grega que mata frequentemente? Porque é que não fazem notícia das acções de solidariedade dos anarquistas e outros contestatários para com as pessoas que perderam os seus haveres, com as que foram atacadas pelos capitalistas fascistas como a sindicalista Konstantina Kuneva que lhe atiraram ácido para a cara ou com o povo de Gaza boicotando o transporte de material suspeito para Israel?

    Mantenho a minha pergunta. Críticos de quê? Podemos ser críticos do Sócrates ou da Ferreira Leite sem nunca sair da alternância do centrão. O mesmo em relação ao Bush e ao Obama. Podemos ser críticos da ofensiva a Gaza sem pôr em causa a política consistente de destruição silenciosa levada a cabo por Israel. O que quero dizer é que a crítica não pode estar circunscrita ao aceitável política e socialmente. Um dos resultados dos trabalhos do Chomsky é precisamente essa constatação: nas democracias ocidentais, o discurso e o debate político são livres desde que se mantenham dentro de um certo limite. Desde que não ponham em causa o statu quo. Ora, isto não é aceitável para o pensamento crítico. Não é democrático sequer.

    Um último apontamento que já deveria ter sido feito há mais tempo. Fora as questões de princípio sobre o poder, a dominação e o autoritarismo, são as minhas opiniões que aqui estão expressas e não implicam mais ninguém. Não devem andar muito longe da maioria dos anarquistas mas é preciso ver que o anarquismo não é doutrinário, não possui um corpo ideológico estanque nem sequer um livro da revelação. Há quem diga que existem tantos anarquismos como anarquistas. Pessoalmente sinto-me bem com isso.

    cumprimentos anarquistas

  17. mescalero
    1 Fevereiro, 2009 às 6:38 pm

    Já agora acabei de descobrir uma entrevista interessante sobre pedagogia libertária e que aborda também o criticismo. Publiquei no meu blog, aqui, se alguém tiver interesse em ler.

  18. Paulo Jorge Gomes
    2 Fevereiro, 2009 às 11:05 pm

    Caro Mescalero.

    Cumprimento-o. Apenas.

  19. mescalero
    3 Fevereiro, 2009 às 3:11 pm

    Tenho que fazer uma rectificação ao que disse. Dei a entender que a Escola da Ponte era anarquista quando não é verdade. O que penso que se pode afirmar com segurança é que a sua pedagogia está próxima da pedagogia libertária.

    Cumprimentos

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