Início > MOVIMENTOS DE MASSAS, REVOLUÇÃO > MEDIA – INFORMAÇÃO – DEMOCRACIA – PROPAGANDA

MEDIA – INFORMAÇÃO – DEMOCRACIA – PROPAGANDA

Image and video hosting by TinyPic

Na Europa, ao contrário dos E.U.A. e do Canadá, o monopólio por parte do Estado, constituiu a base do sistema organizativo da televisão durante várias décadas. A intervenção estatal neste sector processou-se na produção e difusão, por si subsidiadas e/ou regulamentadas. Era uma televisão relativamente boa, propunha bons filmes e emissões honestas. É evidente que os modelos de televisão assentes numa linha de tutela pública têm sido questionados quanto à sua permeabilidade a pressões de ordem política, social ou outras. Em contraponto, os modelos de televisão assentes na lógica económica, é questionada a sua dependência das receitas publicitárias que impõem como objectivo a venda das mais vastas audiências aos anunciantes. A década de 80 fica na história da televisão pelas suas transformações tecnológicas: a expansão via satélite e cabo tornou possível partilhar acontecimentos em directo nos pontos mais distantes do planeta; o pequeno videogravador doméstico e o telecomando são transformados em instrumentos populares, colaborando nesta revolução audiovisual.

A par destas grandes inovações tecnológicas e partindo delas, constituíram-se poderosos grupos internacionais de comunicação com estratégias multimédia, assentes num grande poderio financeiro. Surge, então, o imperativo económico de transformar audiências em proventos publicitários e em simultâneo a degradação financeira das televisões estatais, habituadas a cenários de exclusividade na relação com as suas audiências, são confrontadas com a lógica mercantilista. Assim, substituem o tradicional objectivo de equilíbrio triangular entre informação, cultura e entretenimento por muito entretenimento, alguma informação e bastante menos cultura. As televisões começaram a apostar numa programação mais popular, como a ficção, o desporto, os concursos, os talk shows, e repetição exaustiva de séries clássicas, entre outros. Esta situação levou a uma homogeneização da programação dos canais televisivos de vários países. Actualmente, a televisão é uma “janela indiscreta” que apenas apresenta acontecimentos. Não tem como objectivo explicar as situações, informar, mas sim mostrar em directo aventuras e desventuras sensacionalistas. Desde acontecimentos à escala mundial, conflitos e casos escandalosos, como a guerra do Golfo, a Somália, o Ruanda, a Bósnia, a princesa Diana, Clinton-Lewinsky, o confronto Israel Palestina, entre muitos outros, até à glória instantânea do mais comum cidadão nos reality shows e directos dos telejornais, onde quem testemunhou e está lá no momento tomou o lugar do jornalista. Ao telespectador cabe o papel de voyeur. Tal como Warhol, pintor americano de meados do século passado, profetizou, cada ser humano no século XXI iria ter um quarto de hora de glória, quando se referia aos produtos da sociedade de consumo. O povo tomou conta da televisão, o efémero, a ausência de significado da mediatização, a falta de reconhecimento a quem tem valor e trabalha para o ter, porque não está ao lado do povo, não vende, põe em causa o share e as respectivas receitas de publicidade. Nos nossos dias, as ditas notícias que enchem os ficcionados telejornais, são elaboradas a partir da vontade do dono da estação de televisão, sendo o operário/trabalhador de notícias um executante, hábil em manejar a tecnologia de ponta, faz sozinho o produto pretendido, correspondendo à lógica do patrão e este à lógica da economia de mercado e do maestro da propaganda. Às capacidades da tecnologia actual, que como tudo é um pau de dois bicos, poderemos levar a tornar reais verdades apenas virtuais, como ser sistematicamente desconfiado em relação a tudo o que nos é mostrado. Um exemplo já com uns anos, no casamento do Príncipe Carlos com Lady Di, a 1ª grande transmissão televisiva a nível mundial, alimentou os cavalos que puxavam a carruagem real com um determinado produto para que os seus excrementos fossem da cor do alcatrão. Neste contexto, o que acontece à informação, da qual se disse durante muito tempo, ser o “4º poder”, por oposição aos três poderes tradicionais (legislativo, executivo e judicial) definidos por Montesquieu, que teria a missão cívica de julgar e avaliar o funcionamento dos outros três? Como diz Paul Virilio: “A revolução da informação instantânea, é também a revolução da denúncia. O boato já não é um fenómeno local, mas mundial. A delegação de massas, qualquer que ela seja, torna-se um verdadeiro poder”. Os princípios actuais do funcionamento da informação televisiva tornam muito difícil a articulação da equação:

Informação = Liberdade = Democracia.  Miguel Sousa Tavares, escreveu no jornal “Público”, escreve um artigo intitulado: «Como Chegar ao Poder, Via Televisão». Refere, a propósito das eleições em Itália e a vitória de Berlusconi – o perigo não é Berlusconi controlar a televisão, mas é a televisão ser controlada pelos eleitores de Berlusconi. O poder chegou-lhe através da televisão, não apenas por ser dono dela, mas porque aprendeu a dominar a sua linguagem e sobretudo, a entender o «povo da televisão». Tudo passa por se tornar paulatinamente de share em share, um público moldado pela linguagem televisiva de hoje – que é primária, boçal mesmo, desinformativa e deformativa de valores. (…) Aos poucos vão reduzindo o horizonte informativo, social e cultural a este mundo castrado que a televisão lhes propõe. Sobre o vazio das ideias e valores pode então aparecer o homem do momento, que não fala a linguagem dos políticos, mas das audiências. (…) Nem sequer traz um programa de candidatura ou de governo, (…) vem como um vulgar vendedor de feira e à semelhança do que fez Berlusconi, propor um «contributo directo com o povo».

(…) Os desgraçados julgam-se pessoas livres só porque votam – sem saber que não há pior forma de desigualdade e de privação de liberdade do que a vontade de que se determina na ignorância. E termina: ” (…) É por isso que nada do que se passa na televisão é inócuo ou inocente. As democracias suicidam-se quando, em nome da liberdade de opinião, cedem o poder que conta e que influi aos novos “ayatollahs” dos tempos modernos”. É a máquina imperceptível da propaganda dos políticos da “venda da banha da cobra” que nos cercam por cá e pela Europa que nos comanda que subtilmente impregna as mentes desavisadas e as capacita que são livres porque votam e porque votam vivem em liberdade. Surge o debate sobre a influência cultural da televisão. Torna-se evidente o imenso poder na formação de opiniões e de atitudes dos indivíduos. A televisão por satélite e cabo, complementam a acção: poder sintonizar um canal alemão, francês, inglês, italiano, etc. Onde se vêem os mesmos programas, com pessoas idênticas a fazer coisas idênticas, isso transmite ao consumidor português uma certeza que é cidadão do mundo e um desejo há muito sonhado, ser igual aos outros povos, suspeitando-os mais evoluídos. O desejo imediato de desenvolvimento está assim cumprido. Os telejornais ficcionados e em directo, também percorrem o mesmo caminho, o português e a sua aldeia, terra natal, afinal também podem ter uns momentos de glória. Miguel Gaspar, crítico de televisão que “procurar um programa na televisão é matéria espinhosa, (…) há programas que são como buracos negros em digressão pela Via Láctea”. Principalmente se o programa tiver alguma qualidade, vai saltando de horário, misteriosamente, à procura do share, acabando por desaparecer, sem avisar nem deixar rasto, analogia que fez ao erro 404 da internet: ficheiro não encontrado. Termina, fazendo o aviso: “(…) Se a televisão ignorar a qualidade, a inovação, o mercado de prestígio, acabará por perder a relevância social, limitar-se-á a oferecer o escândalo para não ser esquecida, como a velha sedutora que ainda não entendeu que a juventude já se foi há muito. Não proteger a qualidade é uma falha mais grave do que os erros 404 do nosso desespero”. Actualmente e com a nova hierarquia de poderes vigentes, o económico aliado à comunicação e à lógica da guerra de audiências, podemos imaginar que tudo pode acontecer e que os limites se alteram a todo o momento desde que tenha interesse comercial. É importante perceber que hoje a luta de classes se trava na televisão e os jornalistas já não são o motor da história da comunicação. (…)

As massas suburbanas tomaram conta da cidade. O poder está na rua e a televisão generalista cola-se às forças populares da democracia electrónica”. É precisamente por isso que o sangue pode vir a correr “pelos esgotos a céu aberto” Os dirigentes das estações televisivas vivem prisioneiros das audiências, contradizendo-se, por se esquecerem da sua própria realidade e argumentando com falsas morais, que são mestres em produzir dinheiro e não a produzir educação, cultura e ética. Se a democracia preconiza paz e desenvolvimento, como conviver com uma televisão que gera violência e embrutecimento, estando todo o ser humano indefeso e exposto aos seus efeitos? Uma auto regulação solidária partindo dos jornalistas e do controlo pró-activo dos espectadores é urgente. Se isto for verdade e possível, cumprir-se-á o desejo mais profundo do ser humano responsável e ético, desenvolver-se tendo como referência o desenvolvimento do outro. Pensamos não ser muito difícil se houver verdadeira vontade das mulheres e dos homens dos homens e se o seu pensamento não estiver condicionado completamente à lógica do Dinheiro e do Poder! 

Poderá ser uma Utopia, mas é possível esta UTOPIA LIBERTÁRIA!

# Isabel Pedrosa Pires

Anúncios
  1. 18 Março, 2009 às 10:46 am

    Numa sociedade completamente globalizada a televisão muito dificilmente conseguiria ser excepção à regra e consequentemente “teria” que se vergar aos dítames comerciais do lucro. Mais do que um 4º poder, é na prática muito mais do que isso, e casos evidentes e diários sucedem que demonstram que muitas vezes se substitui (ou é substituida) aos outros poderes tornando-se no “grande” poder. Quem não conhece um caso banal, ou não, de difícil resolução até pelos orgãos insituidos para o efeito, em que a presença de uma câmara de televisão resolve como quase por magia? A força é tamanha que nenhum político/responsável/gestor consegue fazer-lhe frente precisamente porque depende dela e subsiste através dela.
    Quanto ao tal Miguel Sousa Tavares, grande crítico da televisão actual, ficam-lhe mal grandes teses doutrinárias sobre o assunto, quando na prática é um dos principais pactuadores/colaboradores do maior excremento televisivo da actualidade que dá pelo nome de TVI.

    Saudações do Marreta.

  2. 18 Março, 2009 às 11:24 am

    Bem vinda cara amiga.

    Enquanto o lucro se sobrepor à razão, continuaremos a ser escravizados pelo poder dos mídia.

  3. mescalero
    18 Março, 2009 às 11:29 am

    Pessoalmente vejo na televisão um mero instrumento de controlo social, tal como a democracia. A auto-regulação e controlo pró-activo dos cidadãos (telespectadores) só é possível se houver mudanças estruturais nos processos de decisão. De onde provêem as receitas dos canais de televisão? Se for da publicidade então nunca deixarão de estar sujeitos ao poder económico. Quem tomará as decisões quando à gestão do canal, quanto às contratações, quanto à programação? Dependendo de quem mandar, o caminho seguido será necessariamente diferente. Ninguém que financie ou que tenha poder efectivo sobre um canal de televisão permitirá que este siga um rumo alheio aos seus interesses, por isso a auto-regulação e o controlo dos espectadores está directamente dependente destes factores.

    Da forma como as coisas estão o que há a fazer é simplesmente deixar de consumir televisão.

  1. No trackbacks yet.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: