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Tomar partido

Não há sítio neste Portugal dos pequeninos onde o desporto favorito não seja dizer mal. Ao dizer mal dos outros estão a querer dizer bem deles. Os “outros” é que são responsáveis, eles estão de fora. Quem os ouve ou lê, se os levássemos a sério, seriam os melhores. Os melhores políticos, os melhores atletas, os melhores treinadores, as melhores pessoas.

Só que eles nunca estão lá, estão de fora. De fora onde é fácil criticar e dizer mal. Aborrece-me esta classe de pessoas que não participa, que não se envolve em nada, que está a ver passar. Que não tem opinião, não dá opinião, não toma partido, que se abstêm. Mas que diz mal.

Hoje quase toda a gente diz mal de tudo e de todos. Em particular os políticos não escapam aos mais baixos impropérios e mentirosos, ladrões, incompetentes ou corruptos, são palavras que estão nas bocas de quase todos. É cómodo e alivia as consciências. Não há como ter bodes expiatórios para lançar as culpas sobre tudo o que corre mal. As culpas são sempre dos outros. De quem está nos partidos, nos sindicatos, nas associações. De quem faz alguma coisa. De quem está à frente. Como podem ter culpa estas pessoas, se estão de fora?

O problema é que muitos dos alvos dessas críticas se põem a jeito, nomeadamente alguns políticos que contribuem para esta má reputação e descrédito. Porque são efectivamente, ladrões, incompetentes, corruptos. Mas as pessoas têm de saber distinguir o trigo do joio. Não podem ser metidos todos no mesmo saco. Não são todos iguais. É fácil e cómodo estar de fora, repito, a dizer mal de tudo e de todos. Mais difícil é fazer escolhas, tomar partido, confrontar posições, olhos nos olhos.

E porém, só com a participação e uma cultura de exigência cívica é possível mudar as coisas. Não participar no debate e nas decisões que nos dizem respeito, ficando sempre de fora é confortável mas é um refúgio oportunista. As coisas não mudam se nos ficarmos pelas palavras. Se não formos capazes de escolher os alvos certos, distinguir entre, “inimigos”, adversários, parceiros.

Sem partidos e sem políticos não há democracia. E sem participação, temos uma democracia fraca. E sem exigência temos uma democracia doente. E sem participação e exigência, e atacando tudo e todos, temos uma democracia em agonia. Na verdade os políticos que tanto acusamos são eleitos pela maioria de nós. Não tomaram conta do poder à força. A verdade é que por um conjunto de razões a grande maioria dos eleitores parece preferir essa gente. Prefere quem não dá garantias de honestidade, de rigor e transparência. Falta-nos uma cultura de exigência, de rigor, de coragem.

Por mim, faço escolhas agora, tomo partido agora, valorizo quem está no combate político agora, dou o meu apoio político agora. E como se avizinham combates políticos importantes, quero deixar claro, a quem me lê, que vou apoiar o Bloco de Esquerda nas próximas eleições europeias e legislativas, tal como o fiz no passado, enquanto militante. E que a campanha começou hoje aqui! *

# Fernando

* Uma nota aos meus camaradas do Libertário: o Libertário assume-se como uma tribuna de combate e denúncia a uma globalização capitalista e contra todas as formas de opressão. Um propósito que nos une, em primeiro lugar, independentemente do nosso posicionamento político-ideológico e mesmo partidário. O Libertário é assim um espaço independente de partidos, “ideologias, religiões. E assim deve continuar. Ao assumir o meu apoio empenhado ao Bloco de Esquerda nas próximas eleições, não quero, de maneira nenhuma, aproveitar este espaço de liberdade e de combate político, para fazer campanha partidária, mesmo que nunca sendo caixa de ressonância. Neste sentido e crendo não ser capaz de manter um distanciamento e isenção suficiente, nas batalhas eleitorais que se avizinham, parece-me melhor, por uns tempos, deixar de dar o meu contributo ao Libertário. Mas deixo isso ao Vosso critério, aceitando qualquer decisão, com naturalidade.

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Categorias:Fernando
  1. wehavekaosinthegarden
    23 Março, 2009 às 12:57 am

    Amigo Fernando
    Está fora de questão que o apoio de seja de quem for, seja a que partido for, possa inibir o seu direito a manifestar a sua opinião. Todos nós temos ou vamos ter uma opção de voto e o blog não vai parar por isso. A liberdade é isso mesmo, a possibilidade de todos manifestarmos as nossas opiniões sem que isso seja visto como uma ofensa ou uma traição. Cada um que defenda o que desejar, apresente argumentos e idéias e ideais . É na conjugação dessas idéias que todos poderemos ganhar uma certeza, (ou ainda mais duvidas), dos caminhos que desejamos percorrer.

  2. 23 Março, 2009 às 2:40 am

    Não podia estar mais de acordo com o Kaos. É isso mesmo, este blogue tem que ser o que cada um de nós é, ou vai sendo. Eu nem nunca hesitei em colocar aqui as informações da RUE, por exemplo, que não sendo um partido assenta numa linha política determinada. Apenas acho que aqui não se deve fazer propaganda só pela propaganda, mas sim pela oportunidade do seu conteúdo. E nem hesitaria em colocar aqui um post de um texto de um partido político fosse ele qual fosse se achasse que apontava um rumo certo. Nas eleições votarei num partido mas como não é nenhum destes estou à espera que apareça um que diga o que tem que ser dito e aja de acordo com o seu programa. Mentirosos já basta.
    Convido outros a que se pronunciem, por mim, tu e todos podem sempre postar aqui o que lhes aprouver. Que a liberdade de expressão seja apanágio deste blogue!
    Arrogo-me no entanto o direito de entrar em discussão: o bloco de esquerda é europeista, como espera poder aplicar políticas sociais e de esquerda no quadro da união europeia, sem propor a ruptura com as suas instituições proteccionistas do sistema capitalista?

  3. 23 Março, 2009 às 9:41 am

    Era o que faltava Fernando!
    Por mim continuarás a postar independentemente do trabalho que faças para o Bloco. Este bog respeita as ideias de cada um aproveitando-as para criar um dialogo enriquecedor entre quem queira nele participar.
    Aqui não se impinge ideologias,não somos sectarios e todos são bem vindos.

    Beijokas e bom trabalho

  4. 23 Março, 2009 às 10:25 am

    Para além da definição vulgarmente atribuida de anarquista a quem se assume como libertário, este termo de acordo com o dicionário da Porto Editora tem também o seguinte significado:

    “que ou aquele que não admite nenhuma restrição às liberdades individuais”.

    Penso que esta frase resume tudo. Tens a tua liberdade individual de opinar.

    Aliás, segundo o editorial deste blog, o mesmo é democrático, plural solidário e aberto.

    Ao contrário de outros pasquins de vão de escada extremamente sectários, extremistas e ideológicamente fanatizados este, para o bem ou para o mal, tentará por todos os meios ser a antítese desses outros.

    Saudações do Marreta.

  5. 23 Março, 2009 às 10:50 am

    Amigo e camarada Fernando

    Quando este espaço foi criado teve na sua essência primeira a LIBERDADE.

    “Este espaço é democrático, plural, aberto, solidário e libertário, por tal, todos são bem-vindos”

    Ora, não fazia sentido um dos seus membros se excluir só porque perfilha ou apoia um determinado partido ou organização.

    Neste blog TODOS são bem vindos e TODOS devem exprimir a/as suas tendências ideológicas. O único ponto “obrigatório” é respeitar SEMPRE as ideias dos outros e não entrar pela ofensa.

    Por isso, o Fernando ou outro qualquer, pode e deve fazer deste blog um espaço de LIVRE opinião e de troca de ideias, porque foi isso mesmo que esteve da origem do mesmo.

    Como diz a Mariazinha este blog não é sectário nem impinge ideologias, não é de nenhum partido, este blog é de TODOS.

    Abraço

    # ferroadas

  6. 23 Março, 2009 às 7:41 pm

    Como penso ter deixado claro no post, nunca iria usar o Libertário para fazer propaganda partidária. Mas, claro, também não gostaria de me sentir constrangido. Os Vossos comentários demonstram que o Libertário está no caminho certo e com as pessoas certas.

    À Kaótica:

    Num mundo globalizada o combate político só pode ser global. Podemos discutir o modelo organizativo, económico, político, social da Europa, mas a presença de Portugal parece-me uma inevitabilidade. Estar de fora a defender interesses nacionais não faz sentido, em minha opinião, quando tudo é global e exige respostas comuns e transversais às sociedades, em muitas matérias: na economia, na segurança, nas questões sociais, na preservação do ambiente, das provisões energéticas, no controlo das matéria-primas, etc, etc.

    Sem uma UE unificada, (de 27 países e mais de 500 milhões de pessoas) as “defesas” dos países mais pequenos e de mais fracos recursos, estariam hoje mais fragilizadas, condenadas a um isolamento e a um atraso ainda maior e por consequência mais expostos a nacionalismos indesejáveis e ao aparecimento de regimes autoritários.

    Os interesses dos povos são globais. As respostas devem ser globais. Sem prejuízo de saber que neste barco e a concorrer com os interesses mais particular dos povos, o grande capitalismo intenta impor políticas restritivas de direitos, determinar regras, fazer valer os seus interesses distintos.

    Esse é o combate político, num contexto de globalização inevitável: os povos e as organizações políticas e movimentos sociais encontrarem também respostas globais e uma intervenção à escala europeia, para lutar por causas comuns, defender políticas sociais e económicas comuns, combater assimetrias, diminuir a pobreza, defender a paz.

    Por essa razão é que também defendo o foco da intervenção política, da intervenção partidária, da intervenção social, ambiental e sindical, se centre no plano europeu, criando, incrementando ou expandindo, as organizações dos trabalhadores e dos povos em geral, dos partidos políticos (defendo a criação/expensão de um grande partido da esquerda europeia) e até ache útil uma constituição europeia, atenta aos factores que atrás referi, sendo que é melhor estar consagrado em forma de lei as linhas políticas globais europeias e dos poderes a constituir de que manter esta forma encapotada e não escrutinada de poder de Bruxelas e dos grandes Estados Europeus.

    Os nacionalismos (ou patriotismo, para mim é a mesma coisa) são aberrações políticas. A minha escolha são os explorados, os interesses dos que sofrem, o combate às indignidades e isso não tem pátria. Entre um capitalista explorador português e um trabalhador explorado chinês, a minha escolha é óbvia. Por essa razão, sim, sou europeísta de esquerda, mas sobretudo um homem do mundo, onde houver injustiças e indignidades.

    E claro, como já deu para perceber, acho que devemos estar onde está o combate político. Nas ruas, nas fábricas, nos movimentos de cidadãos, mas também, nos partidos e nas instituições onde for possível fazer combate político, seja no parlamento nacional ou europeu. Ou nas rádios, televisões, blogs. Estar de fora não resolve e não ajuda a resolver. Nenhum palco de intervenção política e social deve ser desprezado ou ignorado.

  7. Manuel Baptista
    23 Março, 2009 às 11:09 pm

    Não é comentário ao texto acima e aos seus comentários. É uma reflexão que gostaria de partilhar convosco. Se quiserem podem fazer dele artigo. Terei muito gosto em responder às críticas construtivas que me fizerem. Aqui vai:

    Reflexão política

    A política portuguesa parece-se cada vez mais com um bordel em que a patroa (o grande capital, principalmente estrangeiro) põe e dispõe, jogando com as misérias e ódios vesgos de cada uma das meretrizes em relação às suas colegas.
    Vem isto a propósito da aproximação de mais um ciclo de eleições, num país «agitado» por declarações de pacotilha dos políticos de todas as cores, destinadas e atrair os que conservam uma falsa esperança, dos que gostam de ser enganados. Refiro-me àqueles que depositam esperança nas urnas, como se o desenlace desta continuada e vil tristeza estivesse nuns mágicos quadradinhos de papel, com as não menos mágicas cruzinhas.
    Para que se perceba a inanidade deste «raciocínio», basta atentar no seguinte:
    O PS de Pinto de Sousa vai arrecadar um número significativo de votos, o suficiente para ser o partido mais votado. O partido que – dentro deste sistema – é convidado a formar governo. Seja qual for a modalidade, teremos uma continuidade de políticas de submissão aos ditames dos grandes grupos. Mais, esta continuidade será assegurada pelo PS. Teremos de certeza um governo PS: quer sozinho, com renovada maioria absoluta, quer em coligação com outra ou outras forças políticas, muito provavelmente forças à sua «direita», mas que também podem ser à sua «esquerda», o que não muda nada de substancial.
    Aqueles que têm a ilusão duma política «anti-capitalista» que não seja simultaneamente e francamente anti-autoritária, que percam as suas ilusões, pois o PCP ou o BE sempre se posicionaram ao longo dos 4 anos de governação PS como rivais entre si, pela hegemonia dos trabalhadores e como «líderes» da oposição parlamentar de esquerda, nunca como uma opção alternativa de governo. Para que isso tivesse a mínima credibilidade, eles teriam de se aproximar e fazer as pazes entre as várias facções do «comunismo» autoritário (as inúmeras facções do marxismo leninismo, desde os nostálgicos do estalinismo puro e duro, do maoismo, do guevarismo/castrismo, do trotsquismo de diversas obediências, até aos diversos marxismos ditos revisionistas). O que se viu pelas bandas quer do PCP, quer do BE, foi o oposto, um acirrar de rivalidades, numa estratégia pseudo-popular, mas na realidade, sectária no mais puro estilo «PREC» de há 30 ou mais anos atrás. Tudo somado, eles contentam-se em ser forças «de oposição» institucional, manobrando sindicatos, com um ou outro lugar no aparelho de estado central, nas autarquias, etc., mas sem a responsabilidade total do poder político.
    Eles sabem perfeitamente que não seriam autorizados a exercer uma parte do poder, sem terem de ceder em muitos aspectos da sua ideologia caduca. Teriam de se converter completamente em «esquerda neo-liberal», como voz «crítica» dum PS que detém a medalha da submissão ao grande capital, já sem laivos sequer de socialismo ou de social-democracia.
    A pequenez da política lusa acima resumida demonstra cabalmente a minha tese de que existe um país neo-colonial, com uma ou várias potências europeias (antes o Império Britânico, hoje o neo-império da UE, sob tutela dos USA).
    Perante isto, que é uma evidência, que têm a dizer os senhores e senhoras que se arvoram em «analistas» e «fazedores de opinião»? Nada; continuam a assobiar para o lado, pois eles sabem que há verdades inconvenientes; nem que seja para «negar» os meus argumentos, preferem estar calados, pois seria muito complicado sair fora das «regras» do jogo.
    Regras não ditas, mas por todos/as bem compreendidas. Regra nº1: Vale falar do acessório, nunca do essencial. Pois o essencial implica a denúncia dos seus verdadeiros patrões e eles/elas não querem desagradar aos mesmos, têm destes o sustento, o tacho e a promessa de participar no rega-bofe… à custa dos mesmos de sempre, dos excluídos, dos espoliados, do «bom povo» que serve para ir, «cheio de fé», votar nas próximas eleições.
    É assim que se mantém a choldra, a chusma, bem-educada, polida, sem nada que a distinga da intelectualidade de Paris, Roma, Londres ou Nova Iorque… mais outro aspecto típico das burguesias dos países neo-coloniais.
    Mas, infelizmente, quem não tem nada a ganhar com este jogo ainda continua a deixar-se embalar pela ilusão de que algo de novo possa surgir em resultado do circo eleitoral.
    Não há salvação dentro do regime, nem sequer remendo, porque o regime está podre. Não tem salvação ou remendo, porque o próprio regime impede a transformação necessária. Não há transformação possível sem uma mudança de mentalidades e esse primeiro passo deveria partir das «elites».
    Mas o que são as elites neste país? Serão verdadeiras elites ou apenas uma casta parasitária que pavoneia as suas vacuidades como se fosse pensamento?
    Num país sugado até ao tutano por mais de dois séculos de domínio neo-colonial, não existe burguesia empreendedora, apenas estado-dependente, apenas parasitária!
    Neste país neo-colonizado não existe tão pouco classe trabalhadora autónoma, independente, produzindo o seu discurso, com os seus contra-poderes próprios; temos antes uma classe trabalhadora escravizada por obra e graça do reformismo, quer ele se exprima em partidos ditos «operários» ou em centrais sindicais completamente vendidas, porém arvorando os símbolos e aparências da luta de classe, para melhor entregar os trabalhadores, de pés e mãos atados, aos patrões e ao governo.
    Não podemos esquecer que os sindicatos em Portugal se comportam como uma espécie de guarda avançada dos partidos que os manobram.
    Um país neo-colonial que se afoga no marasmo porque não quer reconhecer os seus enganos profundos, porque prefere continuar a viver na «doce ilusão», em vez de construir a sua própria sociedade civil independente, autónoma dos partidos e do estado.
    Não existe cultura nem vida democrática; tudo é absorvido pelo espectáculo do «desporto rei».
    O futebol é o local geométrico onde se cruzam todos os discursos, todas as intrigas de poder, o imaginário colectivo de um povo suspenso na bota do jogador super-heroí que vem «resgatar» a «honra» de um povo… O super-homem que o vai fazer vibrar, vivendo, nas glórias e desventuras do seu herói futebolístico do momento, a pseudo-afirmação de uma identidade «nacional», há muito alienada, de qualquer maneira.
    Basta ver a subserviência caricata dos portugueses a tudo o que seja estrangeiro, para se compreender que eles estão totalmente descrentes da sua identidade ou só a afirmam como servos dos «poderosos», muito orgulhosos de serem considerados um «povo gentil, afável, hospitaleiro». Basta-lhes viver na apagada e vil mediocridade. Portugal, como local de férias barato, para a classe trabalhadora dos países mais ricos do continente europeu. Tudo isto configura o complexo neo-colonial deste povo.
    Apenas a sua tomada de consciência poderia ser ponto de partida para sacudir o jugo bissecular da opressão, mas isso não pode ser realizado desde o cimo por uma «elite» ilustrada, que não existe.
    Há apenas uma «burguesia compradora», ou seja, que aproveita as migalhas da exploração deste povo, exploração essa que continua a beneficiar os de sempre: grandes consórcios capitalistas internacionais, grandes potências que se servem de Portugal como de um súbdito (veja-se o caso dos Açores e de todas as bases e interesses da NATO).
    Portugal efectivamente pertence aos se aproveitam das pescas, da agricultura, dos minerais e de todas as actividades produtivas para fazerem chorudos negócios.
    Quando já nada restar das riquezas naturais deste país, ainda haverá para explorar um povo semi-analfabeto, o eterno emigrante, capaz de trabalhar sem pedir muito, para voltar um dia à sua aldeia ou vila, para aí viver a sua reforma como um fidalgo, não lhe interessando o que aprendeu na estranja…

    Não existe, decerto, qualquer solução colectiva dentro deste regime. Apenas com a destruição completa, total e irreversível do sistema de exploração capitalista, poderemos viver como um povo, entre os restantes povos, fraterno e capaz de viver por si, amando sua história e seu território, mas de um amor não possessivo, não egoísta. Como o amor de uma mãe orgulhosa por ver seus filhos e filhas capazes de perpetuar a sua memória, capazes de continuar e enriquecer uma cultura milenar em todos os domínios, das artes às ciências, da produção material à produção espiritual.
    Temos portanto de ter um enorme desejo de realização dessa pátria utópica mas alcançável, de uma pátria realmente de todos. Isso só pode ser possível na ausência de capitalismo, experimentando formas colectivas de gestão (autogestão) generalizadas a todas as áreas da produção e da sociedade.
    Sem esta perspectiva, não existe política de libertação, de emancipação, de autonomia e de poder democrático da classe trabalhadora.

    Espero que critiquem muito este escrito, pois a discussão é necessária e eu não estou fechado a ouvir e ler vossos contra-argumentos. Estou profundamente convencido da veracidade do quadro que pintei acima e também tenho real esperança nos caminhos que aponto. Mas sei que as soluções aos graves problemas referidos são necessariamente colectivas e, por isso mesmo, anseio ler as vossas opiniões.

    Solidariedade,
    Manuel Baptista

  8. mescalero
    24 Março, 2009 às 10:33 am

    Caro Fernando,

    A questão que nos colocas contém já a resposta: campanha eleitoral não, opinião pessoal sim. O que acho que cada um nós espera dos outros contribuidores é que fale por si, individual e autonomamente, e que não seja a correia de transmissão de discursos vindos do exterior. Isto é complicado quando há pessoas implicadas profundamente em estratégias partidárias (ou de associações, sindicatos, etc.), mas é um risco que o nosso projecto comum decidiu correr desde o início.

    No meu entender este risco não foi assumido de ânimo leve, tanto que todos nós já devemos ter levado com seitas e revelações messiânicas em cima e conhecemos bem o tipo. Acho que há a percepção geral que os companheiros têm um grau de autonomia suficiente para resistir a esses desvios. É uma confiança mútua que devemos preservar e acarinhar.

    Sendo assim, saúdo a transparência com que colocas o problema e apoio o que os companheiros disseram nos seus comentários.

    mescalero

  9. mescalero
    24 Março, 2009 às 11:05 am

    Quanto ao texto do post, há muitas coisas com que discordo. O que me salta mais à vista é que podia lá estar o nome de outro partido qualquer. As ideias defendidas são transversais a qualquer partido e não se referem propriamente à doença que a democracia representativa padece: um distanciamento crónico das pessoas, um distânciamento congénito e inevitável. Nasceu assim e só assim pode sobreviver.

    Os apelos infinitos à participação cívica e a declaração de que só assim a democracia se curará da sua doença são um ciclo vicioso suicida. Mostram sobretudo que é esse mesmo o estado permanente da democracia representativa. Que não pode mudar.

    Não precisamos de participação, o que precisamos verdadeiramente é de revolta, e essa não vão ser deputados nos parlamentos que a vão instigar. Participar em quê? Na nossa própria clausura? Dar uma mãozinha à máquina que nos mantém submissos? Com a ruptura social a que estamos a assistir, aos efeitos devastadores do capitalismo no meio ambiente, à pobreza a nível mundial, aos números incríveis de escravos que há, ao tráfico de pessoas, às guerras dementes, aos campos de concentração, epidemias descontroladas, ao negócio das armas como o mais lucrativo do mundo, etc. etc. etc. e o meio para mudar as coisas é dar a nossa contribuição para a democracia representativa aliada natural do neoliberalismo? Não tiveram já os partidos, incluindo os de esquerda, demasiadas oportunidades para mostrar que podem mudar o estado das coisas?

  10. 24 Março, 2009 às 12:56 pm

    Grande confusão amigo mescalero:

    participação, exigência, rigor não são propriedade ou programa de partido nenhum, são um dever de cada um se queremos uma sociedade menos conformada, mais justa e respeitadora dos direitos individuais e colectivos. É verdade que os partidos e os políticos fazem “profissões de fé” nas virtualidades da participação e envolvimento dos cidadãos, contudo, salvo raras excepções, são meras palavras de circunstância e conveniência, para eleitor, incauto, ver, pois na prática criam todos os bloqueios possíveis, à participação, discussão e decisão popular, à fiscalização democrática e popular, como modo de democratização da vida política e de envolvimento responsável das populações, na resolução dos seus problemas. E as poucas que existem ou são interpeladas a participar, estão demasiado institucionalizadas e são lhe dadas pouco ou nenhuma importância, servindo apenas para fazer de conta. Mas esse é outro problema.

    A participação cívica exigente já me levou uma vez a tribunal e vai-me levar em Maio novamente, por uma coisa que escrevi num anterior Blogue, Foice dos Dedos. A participação cívica exigente já me levou à suspensão de um sindicato por denunciar certos comportamentos, à não progressão na carreira profissional. A participação cívica exigente não é aceitação do “modelo” pelo contrário. É a sua recusa determinante. É revolta contra a situação. A consciência política ganha-se envolvendo-se, protestando, defendendo causas. Peço-te desculpa, mas não consigo compreender apelos a absentismos. A luta faz-se em todos os tabuleiros. Os parlamentos são, podem ser e têm sido, também, uma tribuna de denúncia e combate. Olha mescalero, pessoalmente estou cansado de grandes tiradas “ideológicas”, com as soluções todas na manga, para um futuro melhor que não se sabe nunca nem como se há-de chegar. O caminho faz-se caminhando e os problemas de hoje têm que ser resolvidos hoje, porque as pessoas sofrem hoje. O caminho é quanto a mim, um caminho de unidade de todas as forças de esquerda, num projecto que minimize as divergências e amplie as convergências, num processo paulatino de desconstrução barra construção ideológica (sem tábus), mas intimamente ligado aos problemas DE HOJE das pessoas, ajudando a criar uma consciência política que leve a perceber que os problemas, as dificuldades, as desigualdades, tem origens mais profundas que possam pôr em causa o sistema e o modelo capitalista de desenvolvimento. Nesse aspecto, revejo-me na actuação política do Bloco, pese, alguns erros e algumas divergências (mas tem apenas 10 anos este projecto). Mas o caminho parece-me este. Apoiando as lutas sociais, os movimentos sociais e dos trabalhadores, sem interferências, sem controles, sem dirigismos, dando expressão e enquadramento político/ideológico ao descontentamento, nos órgãos institucionais, nos médias, em todos os sítios enfim, onde pode ser feito o combate político e ideológico. Por essa razão, naturalmente, não concordo contigo, muito menos com apelos abstencionistas.

  11. mescalero
    25 Março, 2009 às 7:43 pm

    Vou fazer então por esclarecer a confusão. O contexto em que critiquei a participação foi o do post “Tomar partido”, em que é defendida a participação pela via política como forma de mudar o estado das coisas. Foi esta ideia que critiquei, este tipo de participação, mas talvez não tenha sido suficientemente claro ao fazê-lo.

    A política tem como principal objectivo a conquista e manutenção do poder. Pode-se argumentar que há gente de bem na política, que nem todos os políticos são corruptos, ou que nos parlamentos também se luta pelas pessoas, mas tudo isto é demasiado pouco para justificar a manutenção de um sistema que a nível global tem provado ser devastador. Estas justificações soam-me muito similares às que os capitalistas dão para negar que o seu principal objectivo é o lucro e a acumulação. Dizem eles que as empresas geram emprego, que as empresas podem e devem ter responsabilidades sociais, que a acumulação é o que permite investimento, etc. Mas quanto ao capitalismo não temos dúvidas qual o seu propósito. No final de contas o capitalismo e a política cruzam-se mais do que querem fazer parecer: obedecem antes de mais a interesses próprios, são elitistas e exclusivos, profundamente hierárquicos, exercem uma tremenda influência sobre as populações quer directa quer indirectamente (marketing comercial e político por ex.), fogem ao controlo das instituições que supostamente os deveriam vigiar.

    Quando falava em revolta queria dizer revolta contra a política, contra a forma que a política assumiu para se tranvestir de legitimada pela vontade popular, ou seja, a democracia representativa. Contra a classe de políticos profissionais e contra a burocracia institucional. Os partidos fazem obviamente parte deste “sistema”. Alimentam-no e protegem-no como se viu ainda há pouco na Grécia com o partido comunista grego e o equivalente do bloco de esquerda, o synapsismos. Na hora h os partidos de esquerda traíram a revolta e protegeram as instituições. Esta é a história da política, sempre foi assim e sempre assim será. Pode haver discursos muito bonitos e muito boas intenções, mas quando chega a hora de decidir entre a vontade popular e o statu quo os partidos invariavelmente escolhem o segundo.

    É por esta razão que estranho quando alguém me diz, como tu o fazes, que está cansado de ideologia e de soluções na manga e que o que é preciso é ligação às pessoas. O que eu vejo é que as eleições se aproximam e os partidos vão apresentar programas (as tais “soluções na manga”) dentro do seu enquadramento ideológico, como sempre elaborados completamente à margem das tais pessoas às quais se dizem querer ligar. O que vejo é que as soluções que as pessoas precisam aqui e agora não vão chegar pelas mãos dos mesmos partidos de sempre. Pequenas melhorias concerteza que acontecem, mas fazem parte do jogo, são os avanços que contrabalançam os recuos, jogam a favor da manutenção e não da mudança. A isto não chamo de caminho nem muito menos de caminhar, é mais estar parado.

    O que é que afinal as pessoas precisam? Antes de mais precisam que as deixem de tratar como uma entidade abstracta externa a qualquer ideia de mudança. Eu não pretendo intervir para melhorar a vida das “pessoas”. O que eu quero é melhorar a NOSSA vida.

    Depois, acho que não tem nada de “ideológico” ou de pensamento do outro mundo dizer que o caminho a seguir é a autogestão. Se for numa revolução, melhor, mas não precisa de haver nenhuma mudança na sociedade para que as pessoas comecem a tomar o controlo das suas vidas. Aliás, acho que é das propagandas mais perniciosas que a política incute nos indivíduos é que eles não são capazes de fazer as coisas por si mesmo. Desde autogerirem-se no trabalho (há muitas empresas autogeridas por essa Europa fora), fazer redes de apoio comunitário, de trocas por exemplo, criar cooperativas e associações, irem morar para eco-aldeias ou squats, organizarem comedouros populares, fazerem hortas urbanas comunitárias, construir as próprias casas com a entre-ajuda do círculo de afinidade, etc. A isto se chama acção directa, não intermediada. Para quê mandar um tipo para dentro do parlamento falar por nós se podemos fazê-lo nós mesmos a partir da rua. Para dentro do parlamento só concordo em mandar tijolos… pela janela. Sou a favor da abstenção total da política e da acção directa e do faz-tu-mesmo. Acho que já chega de vivermos a vida como se fosse uma visualização permanente de televisão. Acho que estaríamos melhor se desligássemos a televisão e vivêssemos as nossas próprias vidas, sem intermediações.

    Este é um ponto em que inevitavelmente discordamos.

  12. Manuel Baptista
    25 Março, 2009 às 10:45 pm

    Gostava de discutir convosco -ao vivo- o caminho da intervenção social, que possa ir no sentido do auto-empossamento: o que podemos fazer, no sentido de acção directa, para que a nossa política seja a que nós queremos, não delegando noutros o pensarem e agirem em nosso nome…
    Sei que tendes os mesmos interesses que nós, na lista de discussão do colectivo Luta Social. Nesta, iniciou-se uma reflexão despoletada pelo meu escrito «Reflexão Política», que aqui postei.
    Tenho esperança que as pessoas percam as inibições e comecem a pensar com plena liberdade interior e em coerência com o que desejam mais profundamente.
    Proponho o 24 de Abril à noite, em Lisboa (temos de arranjar lugar onde …) Proponham outra data se vos convier…

  13. 26 Março, 2009 às 12:32 pm

    mescalero,

    talvez por já ter uns anitos estou hoje mais pragmático. e a minha preocupação de hoje, é mesmo a de lutar solidariamente por uma melhor vida para as pessoas mais fragilizadas; por uma vida digna, sendo que vida digna é ter os direitos básicos todos: o direito à saúde, educação, habitação, o direito ao trabalho, o acesso à cultura, defender as liberdades, a igualdade e a justiça social, contra todo o tipo de discriminações, contra os abusos e a exploração.

    o resto são outras guerras. e aí tenho muitas dúvidas sobre o modelo de organização da sociedade. quando era mais novo afirmava-me comunista e mais recentemente anarca-comunista; anarca-comunismo que parece-me ir ao encontro do que preconizas, penso eu.

    a questão para mim é que as mudanças a sério, para não haver depois grandes retrocessos, como aconteceu no bloco de leste, se fazem pela aquisição de uma consciência e uma cultura política que se aprende no combate político, em todo o lado e em todas as lutas.

    por essa razão, considero que a presença de um partido “revolucionário” ou partidos, sem tentações de vanguardismos, de lideranças impostas, de controle dos movimentos sociais e dos trabalhadores, pode desempenhar um papel importantíssimo nos órgãos institucionais, onde tudo se decide, exercendo um papel de denúncia das tramoias, dos golpismos e dando uma expressão pública que estando fora, seria limitada ou mesmo ignorada pelos média. por outro lado, podem sempre apresentar propostas para resolver os problemas mais prementes das pessoas que atravessam grandes dificuldades …hoje e confrontar os poderes com as suas escolhas.

    reduzir este papel dos partidos e dos políticos, como alguns fazem, a de gestores do capitalismo, é redutor e injusto, e são generalizações que a mim, particularmente, me custam muito: porque acredito, conheço, sei que há muita gente na actividade política e partidária, bem intencionada e com convicções profundas para mudar a sociedade. E que, fruto da experiência vivida, politica e pessoalmente, vai fazendo um novo percurso, sem dogmas, mas ligado às lutas sociais, para consolidar um projecto, atento aos novos tempos, mas sem nunca renegar os princípios de uma política verdadeiramente socialista como primeiro passo e contra-ponto ao modelo capitalista.

    a participação cívica, exigente, rigorosa, insere-se neste processo de aquisição de uma consciência política e dos direitos fundamentais das pessoas. e essa participação tem muito de uma participação política.

    também eu, quando abandonei a militância partidária em fins dos anos 80, deixei de votar, mas e sem querer fazer propaganda partidária, com o surgimento do Bloco, voltei a acreditar que era possível mudar qualquer coisa. não estou arrependido e penso que o Bloco contribuiu para arejar a cena política e combater a pensamento único da inevitabilidade das políticas neoliberais, pese ter algumas discordância políticas, por ainda não se ter livrado de algumas tendência para uma certa arrogância moral e intelectual.

    Um abraço mescalero. é pena esta nossa discussão, no bom sentido, não se dar pessoalmente, e não estar condicionado pela linguagem escrita.

  14. mescalero
    26 Março, 2009 às 3:29 pm

    Fernando,

    Eu também me considero pragmático e julgo que as ideias que defendo são para consumo imediato. Como disse acima, não estou à espera de nenhuma revolução para ver o mundo mudar.

    Também sei que as ideias que defendo têm algumas limitações. Uma delas é a que referes de haver a necessidade de consciencialização social para os problemas de que falamos. Ainda assim, acho que esta limitação não invalida a aposta na construção de alternativas autogestionárias, descentralizadas e independentes. Antes de mais porque é preciso praticar e divulgar outras formas de convivência para que essa consciência se ganhe. Quem já tem a consciência dos males do autoritarismo pode avançar para a prática anti-autoritária no seu dia-a-dia subvertendo as estruturas de dominação, dando exemplos, propagando a ideia para que possa ser considerada por outros. Segundo e talvez até mais importante, porque essas alternativas nascem espontaneamente da necessidade das pessoas. Nascem delas e são postas em prática para resolver os seus problemas. Muitas vezes de pessoas sem qualquer noção de política. A descentralização, o apoio-mútuo, a democracia directa, o faz-tu-mesmo, são mais do que formatos pré-concebidos. São as melhores soluções que por vezes as pessoas encontram para resolver os seus problemas.

    Espero que venhamos a ter a possibilidade de trocar ideias pessoalmente. Talvez numa futura farra blogosférica organizada pelo ferroadas. Abraço.

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