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«A Revolução e os Sindicatos»

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Imagem daqui

«Mesmo à medida que o sindicalismo adopta princípios da luta de classes, ele não se propõe em nenhum momento, do combate quotidiano, a inverter a sociedade; pelo contrário, ele empenha-se a defender os interesses económicos dos trabalhadores, no seio da sociedade capitalista. Esta defesa assume por vezes um carácter de combate encarniçado mas nunca propõe, nem implicitamente nem explicitamente, a transformar a condição operária, a revolução. Algumas das lutas dessa época, mesmo as mais violentas, não visam esse objectivo. Tudo o mais mostra um futuro indeterminado, que comporta desde esse momento o carácter de cenoura à frente do burro, a supressão do patronato e do assalariado e, por conseguinte, da sociedade capitalista que os engendra. Mas nenhuma verdadeira acção será alguma vez assumida nesse sentido.

(…)»

(excerto de um texto de Benjamin Péret de Le Libertaire de 10/Julho/1952; tradução minha)

Ler mais aqui

Achei curioso encontrar este texto de Benjamin Péret, escrito nos anos 50 do século vinte, já lá vão mais do que meio século. Nele se aponta o dedo aos sindicatos, ou melhor, direi eu, aos dirigentes sindicais e não à massa de trabalhadores sindicalizados que ainda esperam que sejam as organizações dos trabalhadores a defenderem os seus interesses.
Benjamin Péret não se limita a apontar, ele coloca o dedo bem na ferida, dizendo que em momento algum os sindicatos ousaram dar o passo que conduzisse a uma verdadeira ruptura com o sistema capitalista instituído. Como resolver este impasse? Como podem os trabalhadores contar e confiar nas suas estruturas organizadas, a maior força que possuem, se a História tem mostrado que apenas servem para negociar as parcas migalhas que o Capitalismo lhes concede, quando concede.
Não trago para aqui este texto com um propósito anti-sindicalista ou derrotista. Antes pelo contrário: só em consciência e à luz dos exemplos da História será possível os trabalhadores tornarem-se mais exigentes e intervenientes. Para tal não bastará ficar à espera que sejam os dirigentes sindicais a apontar o rumo certo, eles têm que ser impelidos pela massa mais consciente e informada, obrigados a dar o passo certo.
Em Portugal dos nossos dias temos um exemplo recente: a Plataforma Sindical dos Professores foi impelida pela massa e pelos movimentos independentes a dar o passo certo, obrigada a romper – ainda que apenas implicitamente (não explicitamente) com o Memorando do Entendimento.
Parece um assunto passado mas não é e deve ser lembrado constantemente porque houve um momento em que a luta dos professores podia ter sido ligada à luta dos outros trabalhadores (pelo menos os de toda a função pública, sujeitos às mesmas afrontas profissionais) mas foram os próprios dirigentes sindicais que travaram a luta, convencendo os menos informados que o Memorando seria a única saída para aquele ano lectivo.
Mais uma vez a massa veio para a rua, ainda com mais força (120 000 no dia 8/Nov/2008). Os dirigentes sindicais fizeram aprovar por maioria uma marcha nacional com pais e encarregados de educação, com os outros trabalhadores em defesa da escola pública. Chegada a altura certa essa resolução foi deixada cair no esquecimento. Substituída por um Cordão Humano e, uma semana depois por uma manifestação da CGTP para onde os professores não foram chamados a participar massivamente. Uma semana depois! Porquê? Com que intenção se insiste em separar as lutas em sectores profissionais dividindo em vez de juntar.
Acredito que sem uma maior consciência por parte dos trabalhadores, e não só consciência mas também participação, acção, empenho, os sindicatos continuarão a ter o papel que pelos vistos desde sempre tiveram: serem apenas mais um parceiro na concertação social promovida pelo sistema Capitalista no sentido de aparentar que as regras democráticas ainda existem.
Aos trabalhadores não basta pagarem as quotas do sindicato e esperarem que lhes resolvam todos os problemas. Têm que estar presentes nos congressos e nas reuniões sindicais para que a última palavra seja a sua. Os trabalhadores mais do que nunca têm que se organizar no sentido de exigirem que as suas organizações realmente os defendam. Os trabalhadores têm que exigir ser parte activa nas decisões sindicais. É a única forma de vencerem o Capitalismo no quadro da democracia.

#kaótica

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  1. 25 Março, 2009 às 9:55 am

    A triste constatação, para além do que (bem) relatas é que em muitos casos o “Sindicato” se tornou num albergue de tachos e tachistas.
    Cá na minha (deles) empresa havia uma delegada sindical. Uma vez solicitei-lhe várias propostas de adesão ao sindicato para inscrever vários colegas meus. Até ao presente momento (já lá vão mais de 6 anos…) continuo à espera delas. Infelizmente, ou felizmente, já não deverão chegar, pois a dita cuja (delegada sindical) já não se encontra na empresa, deu o salto para… o sindicato. Neste momento os trabalhadores não têm delegado sindical, quanto mais propostas de adesão…
    Lembro-me também de numa altura remota ter sido aventada a hipótese de uma greve por parte dos trabalhadores, face aos atentados cometidos pelos representantes da emprensa contra os mesmos, e recordo-me que a resposta da delegada foi a seguinte: “Isto está mau para greves!”
    Penso que estamos todos (Povo) entregues à bicharada, e com estes também dificilmente poderemos contar. Só encontrando outras formas de organização e união alternativas fora dos partidos e sindicatos (actuais) poderemos pensar em mudar o satus-quo em vigor, e tal afigura-se no presente extremamente díficil, senão mesmo impossível, pois tudo terá que passar pela transformação de mentalidades que levará à consequente acção, e isso não se faz em 1/2 dúzia de anos.
    O retrato é negro, mas penso que é real. É claro que existem sempre outras formas de dar a volta à coisa, mais radicais, diria…

    Saudações do Marreta.

  2. Manuel Baptista
    25 Março, 2009 às 10:53 pm

    Camaradas,

    A nossa tentativa de organizar um sindicato que chegou a ser legal e foi logo ilegalizado pelo tribunal, merecia ser conhecida para poderem avaliar como é
    crítica para o poder instituído a questão do controlo dos sindicatos.
    O facto é que nós desmascarámos a farsa do poder «democrático» e da quantidade enorme de capados que fazem de conta que lutam, neste país: procura «acinterpro» (associação de classe interprofissional).
    Pois este nosso sindicato foi silenciado, sem que qualquer dos pseudo-sindicatos ou mesmo organizações ditas «de esquerda», «revolucionárias«, «anarquistas» etc se importassem.
    Razão de mais para considerar como uma ameaça séria ao poder instituído, que nos auto-organizemos (dentro ou fora dos sindicatos «estatais e concertativos») sindicalmente!!!

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