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Julgamento histórico contra a Shell

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Fotografia: Sophia Evans

Após 14 anos do julgamento forjado pela ditadura nigeriana contra o activista Ken Saro-Wiwa e os seus oito colegas ogoni que resultou na sua execução, está marcado para 26 de Maio em Nova Iorque o julgamento da petrolífera Shell pelo seu envolvimento nos acontecimentos.

A Shell começou a produção de petróleo no delta do Níger em 1958. Desde então, o povo ogoni da região com o mesmo nome, viu o seu modo de vida agrícola e piscatório ameaçado por poços de detritos a céu aberto e oleodutos a cruzar  a região, devastação ambiental e poluição a somar à pobreza e aos abusos dos direitos humanos.

O movimento que se formou em resposta (MOSOP) foi surpreendente para as autoridades e para a multinacional que não esperavam a resistência firme de milhares de ogonis. Ken Saro-Wiwa e os ogoni conseguíram levar à comunidade internacional o seu protesto pacífico que colocava em cheque as práticas neocoloniais da Shell e da Chevron, que afinal de contas são habituais nas grandes corporações, particularmente no terceiro mundo. A resposta foi o escalar da repressão usando de subornos às autoridades corruptas e violentas que culminou a 10 de Novembro de 1995 no julgamento e execução de nove ognoni, entre os quais a figura mais destacada do movimento reivindicativo, o autor e produtor televisivo Ken Saro-Wiwa.

Agora, devido a uma alteração na legislação norte-americana, a Shell e um dos seus executivos vão a tribunal acusados de crimes contra a humanidade, tortura e prisões arbitrárias. Do processo faz parte a acusação de suborno a duas testemunhas no julgamento dos nove ogoni. Testemunhas alvejadas pela polícia militar que defendia o oleoduto da Shell irão alegar cumplicidade da petrolífera ao pagar à polícia para proteger os seus interesses. Owens, irmão de Ken Saro-Wiwa, irá testemunhar que  Brian Anderson, o director executivo da subsidiária da Shell na Nigéria, lhe disse aquando do julgamento contra o seu irmão: “Não seria impossível desistir das acusações se os protestos forem cancelados”. Quanto a isso, as últimas palavras de Saro-Wiwa não deixaram margem para dúvidas: “Senhor, leva a minha alma, mas a luta continua.”

Saro-Wiwa havia jurado que a Shell ainda haveria de ser julgada pela sua morte. No próximo 26 de Maio, 14 anos após a sua morte, o seu desejo vai ser cumprido num tribunal de Nova Iorque.

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Poema de Ken Saro-Wiwa, escrito após a sua detenção na prisão de  Port Harcourt

Ogoni! Ogoni!

Ogoni is the land
The people, Ogoni
The agony of trees dying
In ancestral farmlands
Streams polluted weeping
Filth into murky rivers
It is the poisoned air
Coursing the luckless lungs
Of dying children
Ogoni is the dream
Breaking the looping chain Around the drooping neck of a shell-shocked land.

Mais informação em:

Remember Saro-Wiwa
Wiwa vs Shell
Earth Rights

Adenda: Coincidentemente, ou não, a Nigéria volta às notícias no dia de hoje por um problema idêntico ao que originou este post. Pfizer vai pagar quase 55 milhões de euros por morte de crianças na Nigéria. O caso remonta a 1996, quando uma epidemia de meningite fez mais de 11.000 mortos na Nigéria. A Pfizer teria enviado médicos que recolheram 200 crianças para serem usadas como cobaias nos ensaios do Trovan, um novo medicamento. 11 crianças morreram e 181 outras sofreram danos cerebrais

mescalero

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Categorias:Uncategorized
  1. Anónimo
    8 Abril, 2009 às 10:15 am

    Qualquer uma das notícias é de uma atrocidade aberrante. O concluio entre as grandes multinacionais ocidentais e as autoridades políticas/policiais é tristemente célebre no continente africano, mas não só. Se a corrupção na Europa e América do Norte é elevada e comum entre os meandros do poder decisório, imagine-se em África e Ásia!
    É precisa uma revolução global para alterar este status-quo, iniciada e concretizada pela esmagadora maioria da população mundial: o povo trabalhador, explorado e oprimido.

    Saudações do Marreta.

  2. 8 Abril, 2009 às 10:17 am

    Qualquer uma das notícias é de uma atrocidade aberrante. O concluio entre as grandes multinacionais ocidentais e as autoridades políticas/policiais é tristemente célebre no continente africano, mas não só. Se a corrupção na Europa e América do Norte é elevada e comum entre os meandros do poder decisório, imagine-se em África e Ásia!
    É precisa uma revolução global para alterar este status-quo, iniciada e concretizada pela esmagadora maioria da população mundial: o povo trabalhador, explorado e oprimido.

    Saudações do Marreta.

  3. 8 Abril, 2009 às 10:44 am

    Quanto ao primeiro parágrafo e em relação à Shell, quantas arbitrariedades não são cometidas diariamente em nome do “progresso” da “melhoria” das condições de vida das populações e que certos governos corruptos se deixam “enganar” por esses potentados do capitalismo internacional, um exemplo que nos “toca” de perto (Guiné-Bissau), este país tinha nas suas águas territoriais dos maiores viveiros naturais de marisco, nomeadamente camarão, durante parte da década de oitenta e a troco do tal desenvolvimento do seu povo esse mesmo marisco foi dizimado por enormes arrastões de sucção (proíbidos por lei internacional) provenientes nomeadamente da URSS, mas também de Espanha e Japão, resultado, só dentro de cinquenta anos (cálculos bastante optimistas) os stocks serão repostos, pois a natureza a isso o obriga. Neste particular as perguntas que se impõem são:

    Onde está o dinheiro entretanto recebido?
    Que desenvolvimento criou?
    Que ganhou com isso o Povo guineense?

    Claro, o mesmo (dinheiro) foi parar aos bolsos de meia dúzia de governantes e não só, que entretanto o fizeram aplicar em luxos e mordomias várias pelas europas, USA’s, etc..

    Quanto ao segundo ponto e em relação às cobaias humanas, o nazi/fascismo deixou semente. Já agora um pequeno parêntese, para onde foram alguns “anjos da morte” nazis? a que se dedicaram a seguir a 1945? a fazer croché não foi concerteza.

    Abraço

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