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O regime de Portugal tem uma grave doença que precisa de ser diagnosticada

Tenho reflectido sobre os rumos da democracia em Portugal e cheguei à conclusão de que o problema é que se trata de uma enfermidade não diagnosticada, ou um diagnóstico feito mas não reconhecido pelas gentes.

Portugal, desde há pelo menos 200 anos, passou de país colonizador a país colonizado, submetido por várias potências: primeiro a Grã-Bretanha, depois pelos países ricos da UE, com participação dos EUA.

Tudo se pode compreender melhor, incluindo a enorme quantidade de corrupção e falta de vergonha da classe política, se virmos este país como uma vulgar neo-colónia, seja do continente sul -americano, seja africano.

De facto, esses países têm (ou tiveram) regimes que até podem ser formalmente democráticos, mas onde uma pequena oligarquia manda, usando políticos corruptos para fazer o jogo da representação e manter assim o povo quieto.

Gostava de escrever um livro para fundamentar melhor e tornar mais popular esta tese. Preciso de colaborações sobre o assunto.

Escrevam-me: manuelbap@yahoo.com

Agradeço qualquer apoio que queiram dar-me.

Solidariedade,
Manuel Baptista

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Categorias:Uncategorized
  1. 23 Abril, 2009 às 10:19 am

    Manuel:

    penso que a enfermidade está mais do que bem identificada e passa muito pela trilogia corrupção/compadrio/lambe-botismo. Para além disso, parece-me também que o diagnóstico já foi feito e RECONHECIDO pelas gentes, mas que não existe interesse generalizado em alterar o status-quo vigente, por aqueles que têm capacidade e poder para tal. Quanto aos outros (a grande maioria), amestrados em rebanhos continuam o seu trajecto efémero subservientes e, mais grave, sem alternativas viáveis, nem motivação e capacidade para alterar profundamente o que quer que seja.
    Por último gostava apenas de dizer que na minha modesta opinião o “mal” terá muito mais do que 200 anos de existência. E o “mal” é uma questão de mentalidade, educação e civismo, que nunca andaram de braços dados por este rectângulo. A necessária transformação passará fundamentalmente por aqui, sendo que uma mudança estrutural neste aspecto levará pelo menos 1 século a efectuar-se, isto partindo do princípio que começaria agora, o que não me parece.
    Podia apontar inúmeros exemplos para retratar o que acabo de escrever, mas seria fastidioso e dispensável, pois são certamente do conhecimento generalizado e muitos já vivenciados por todos.
    Quanto ao livro acho uma excelente ideia, torná-lo popular é que se tornará mais difícil, precisamente devido ao tal déficite a que me refiro anteriormente.

    Saudações do Marreta.

  2. Manuel Baptista
    23 Abril, 2009 às 10:30 pm

    Obrigado Marreta,

    As tuas considerações sobre o tema são merecedoras de reflexão; mas não estarás a esquecer que se trata de um processo?

    E quanto à duração necessária para a mudança, eu abstenho-me de fazer prognósticos. Mas, para teu (e meu consolo) basta pensar quantos portugueses um ano antes do 25A estavam seguros que o regime fascista estava morimubundo? Quem levaria a sério uma afirmação peremptória de que o regime chegara ao fim?

    Se qusieres, podes postar no site esta reflexão abaixo.
    Abraço,
    Manuel Baptista

    ——–

    Quando este projecto começou a germinar dentro de mim, percebi imediatamente que ele se devia a uma enorme frustração pelo que vejo e me apercebo do meu país. Pensei que tantas pessoas como eu têm vindo a exprimir essa raiva e frustração por tudo o que se está a passar aqui e agora. Mas a raiva, a indignação, a revolta, somente são algo de positivo, se desembocarem numa procura efectiva de solução para os problemas. Caso contrário, são apenas uma razão suplementar para amargar, para azedar interiormente. É por isso que lanço este apelo.
    Existe um falhanço histórico da intelectualidade, das pessoas que têm maior responsabilidade, porque detêm saberes e meios de os divulgar. Os académicos, os docentes, membros de profissões em contacto diário com um vasto público, têm especial responsabilidade em explicar o que se passa. E têm essa responsabilidade porque detêm meios (os instrumentos, as ferramentas intelectuais) que os podem apetrechar a fazer a análise (diagnosticarem a doença) e desde logo a apontar caminhos para a «cura» ou a esclarecer quais as opções se colocam.

    É uma tarefa ciclópica, por isso eu sei que nunca a irei realizar isolado, com base nas minhas próprias forças… até porque tenho de ganhar o pão quotidiano e não posso descurar os meus deveres profissionais e outros. Mas, mesmo que dispusesse de uma infinidade de lazer, não seria bom tentar realizar este projecto a solo, desde já porque ele só faz sentido sendo colectivo; a questão que aponta é uma questão eminentemente colectiva (diz respeito a toda sociedade portuguesa) e, sobretudo, aponta para uma prática de discussão/acção que deverá ser colectiva.

    Devemos nos despir das vendas ideológicas que nos tolhem a visão de problema, devemos perceber que estamos perante um fenómeno de ocultação não intencional, não deliberado. Não cabem aqui quaisquer «teorias da conspiração». O problema, tão simples na sua essência, é o seguinte: como se explica o atraso crónico e secular deste país, à beira-mar plantado?

    Um país que poderia ser um «jardim», mas não é; mais parece um lugar de exílio («Pátria, lugar de exílio», para retomar um dos mais belos livros de poesia portuguesa do séc. XX). Vamos continuar A ASSOBIAR PARA O LADO E IGNORAR ESTE FACTO FUNDAMENTAL ou teremos a coragem de olhar a realidade em frente? Reconhecer que somos um antigo império (e antiga nação) convertido numa NEO-COLÓNIA, num país colonizado nas múltiplas vertentes; colonizado económica e politicamente, sem dúvida, mas que o é sobretudo porque um complexo mental, cultural se apoderou da nossa intelectualidade e do nosso povo, em geral?

    Vamos perder os complexos estúpidos de «esquerda» e deixar de ter receio de sermos catalogados por idiotas como «nacionalistas», porque consideramos dever estar no seio do povo, que tem amor á sua pátria, á sua terra, amor esse totalmente justificado e que não anula, nem atenua, o olhar de censura que temos em relação à forma bárbara como uma (falsa) elite tem espatifado (literalmente) as oportunidades de desenvolvimento deste «cantinho luso»?
    Nada mais estúpido do que estarmos preocupados com o «politicamente correcto», com «a conotação» que tem este ou aquele ponto de vista. Não devemos ter medo de errar, de sermos ridículos até, pois os que nos acham ridículos são, eles próprios muito mais, e são com certeza, porque se mantêm na estéril crítica destrutiva e «ad hominem», apenas preocupados em fazer valer o seu ponto de vista, para –afinal de contas – satisfazer a sua ambição de poder, de se pavonearem pelo «mundo», como «celebridades» de uma hora, num qualquer programa televisionado…

    Considero que esta visão da história portuguesa marcada pela sua transformação em neo-colónia é totalmente evidente para quem conheça razoavelmente a história dos últimos 200 anos. A ocultação sistemática, um obnubilar intencional nesta história, dos mais relevantes factos tem ocorrido: isto revela que cada tendência política e ideológica tenta distorcer a realidade, tenta enquadrá-la da maneira mais conveniente para sustentar as suas teses.
    Mas eu sei que devemos tentar submeter as nossas hipóteses a uma verificação: a hipótese de trabalho pode ser posta à prova dos factos, quer passados quer presentes? Se sim (e somente neste caso) estamos perante uma construção defensável em termos científicos.
    Há que responder, no inicio do percurso, a duas questões:
    – Como se pode caracterizar um dado país ou povo como neo-colónia, como neo-colonizado? O que significa este termo? Em que situações tem sido aplicado? Que consequências tem sido extraído nos diversos casos que nos mostra a História contemporânea?
    – Que sintomas, que indícios, de neo-colonização apresentam este país e este povo concretos? Quais os aspectos que aproximam Portugal de um retrato robot de neo-colónia? Quais os aspectos em contradição com tal visão? Serão tais contradições autênticas, genuínas, ou somente aparentes?

    Assumindo os resultados desse primeiro duplo inquérito, teremos de avançar para uma explicação diacrónica sobre o desenvolvimento da patologia diagnosticada…Como se instalou? Como se consolidou? Como se perpetuou?

    Precisamos de conhecer e avaliar a história económica, a sociologia, a história da cultura, da ciência, etc.

    As respostas às perguntas genericamente formuladas acima, levarão logicamente a uma «terapêutica», ou seja, a tentar-se aplicar os conhecimentos adquiridos ao domínio da prática política e social.

  3. 24 Abril, 2009 às 9:28 am

    Manuel:

    Ok, o fim do regime aconteceu e certamente muitos portugueses não o imaginariam um ano antes. Mas quanto tempo demorou até que as conquistas obtidas com a revolução voltassem de novo a ser desbaratadas? Quanto tempo bastou para o processo se inverter até chegarmos ao estado em que nos encontramos actualmente?
    E porquê? Segundo a minha opinião, precisamente devido à impreparação cultural/educacional, à tacanhice de mentalidade, à manifesta falta de civismo e ao laxismo tipicamente portugueses que permitiram que os cancros anteriores (corrupção/compadrio/lambe-botismo e outros ismos…) continuassem a fazer parte da nossa cultura intrínseca. A par disso, o povo português sendo na generalidade um povo inculto, facilmente foi usado e abusado pelos mesmos ou outros vampiros de sempre travestidos de democratas.
    É por isso que afirmo que enquanto não se processar uma transformação radical das mentalidades que, obviamente, só terá sucesso através destes três vectores (Educação/Cultura/Civismo) este objectivo nunca poderá ser concretizavel.
    Em caso contrário, qualquer revolução será sempre insípida e inconsequente porque facilmente os propósitos da mesma serão manipulados pelos mesmos chupistas de sempre.

    Saudações do Marreta.

  4. Manuel Baptista
    24 Abril, 2009 às 2:33 pm

    O que eu questiono é diferente, Marreta. Eu questiono a origem destes sintomas; a incultura é sintoma; a corrupção é sintoma, a falta de civismo é sintoma… sintomas de quê? Da existência de um complexo económico- político -cultural chamado neo-colonialismo. O facto de se reconher não é a cura do referido mal, mas é um caminho para se estabelecerem as estratégias para saírmos deste processo degradativo, deste ciclo vicioso.
    Com razão referes que uma revolução que não se dirija à raíz dos males, apenas será uma sacudidela e depois tudo voltará a ser como dantes. Portanto, se queremos que as coisas mudem verdadeiramente e em profundidade, temos de ir ao âmago da questão: estamos ou não perante uma situação neo-colonial? Terá ou não pertinência um inquérito que se debruce sobre os parâmetros dos diversos âmbitos (político, cultural, económico, estratégico…) com vista a esclarecer o problema? Temos de nos pôr de acordo sobre a origem do complexo que atinge Portugal como se fosse uma maldição… de certeza que não se trata de um problema «endógeno» ou «genético» da nossa população. Nem vale a pena explicar que somos uma população geneticamente diversa, o que vai permitir múltiplas e diversas características. Nem vale a pena explicar que temos inúmeros exemplos de pessoas portuguesas ou de origem portuguesa radicadas no estrangeiro, que são exemplos de seriedade, de trabalho produtivo, às vezes de talento ou de génio, com elevado civismo e perfeita integração nas comunidades de acolhimento.

    Acho que há um fenómeno curioso das pessoas que se interessam por política e sobretudo na «esquerda», de considerarem os problemas com um certo fatalismo, o que nos leva inevitavelmente para uma atitude atentista, sebastianista, de esperar que se dê uma revolução mundial para que algo mude em Portugal. Ora não tem que ser assim: muita coisa há que mudar no imediato. Podemos agir de forma interventiva, mas com um sentido de rumo. Esse rumo não pode mais ser traçado pelas cabeças iluminadas de uns intelectuais ou de um qualquer comité central (e ainda bem!). A solução só pode ser encontrada em diálogo, em redes horizontais, como as gentes das políticas de esquerda estão a descobrir agora, dez anos depois de serem generalizadas nos movimentos anti-autoritários de resistência e alternativa ao capitalismo globalizado.
    O debate que pretendo lançar para a mesa é portanto muito importante, do meu ponto de vista, porque as políticas destinadas a emancipar o indivíduo e o colectivo, hoje em dia, têm de ser equacionadas numa série de patamares paralelos e não apenas de forma unidimensional. Podemos lutar contra o capitalismo sem lutar contra o estado e a sua organização que é o principal sustentáculo do mesmo? Obviamente que não, pelo menos não de forma coerente. Igualmente, podemos estar a focalizar a nossa luta e denúncia em fenómenos que são apenas os efeitos de uma deslocação do poder para centros distantes, por exemplo a Comissão Europeia, a NATO…

    Solidariedade,
    Manuel Baptista

  5. Manuel Baptista
    24 Abril, 2009 às 2:48 pm

    Ainda como apenso, escrevi -há cerca de um mês- um texto muito aplaudido por pessoas libertárias e não-libertárias. Mas na voragem do instante, estes textos não são causadores de discussão séria, infelizmente, ao contrário do que é/era a minha intenção, por isso vou transcrevê-lo:

    Reflexão política

    A política portuguesa parece-se cada vez mais com um bordel em que a patroa (o grande capital, principalmente estrangeiro) põe e dispõe, jogando com as misérias e ódios vesgos de cada uma das meretrizes em relação às suas colegas.
    Vem isto a propósito da aproximação de mais um ciclo de eleições, num país «agitado» por declarações de pacotilha dos políticos de todas as cores, destinadas e atrair os que conservam uma falsa esperança, dos que gostam de ser enganados. Refiro-me àqueles que depositam esperança nas urnas, como se o desenlace desta continuada e vil tristeza estivesse nuns mágicos quadradinhos de papel, com as não menos mágicas cruzinhas.
    Para que se perceba a inanidade deste «raciocínio», basta atentar no seguinte:
    O PS de Pinto de Sousa vai arrecadar um número significativo de votos, o suficiente para ser o partido mais votado. O partido que – dentro deste sistema – é convidado a formar governo. Seja qual for a modalidade, teremos uma continuidade de políticas de submissão aos ditames dos grandes grupos. Mais, esta continuidade será assegurada pelo PS. Teremos de certeza um governo PS: quer sozinho, com renovada maioria absoluta, quer em coligação com outra ou outras forças políticas, muito provavelmente forças à sua «direita», mas que também podem ser à sua «esquerda», o que não muda nada de substancial.
    Aqueles que têm a ilusão duma política «anti-capitalista» que não seja simultaneamente e francamente anti-autoritária, que percam as suas ilusões, pois o PCP ou o BE sempre se posicionaram ao longo dos 4 anos de governação PS como rivais entre si, pela hegemonia dos trabalhadores e como «líderes» da oposição parlamentar de esquerda, nunca como uma opção alternativa de governo. Para que isso tivesse a mínima credibilidade, eles teriam de se aproximar e fazer as pazes entre as várias facções do «comunismo» autoritário (as inúmeras facções do marxismo leninismo, desde os nostálgicos do estalinismo puro e duro, do maoismo, do guevarismo/castrismo, do trotsquismo de diversas obediências, até aos diversos marxismos ditos revisionistas). O que se viu pelas bandas quer do PCP, quer do BE, foi o oposto, um acirrar de rivalidades, numa estratégia pseudo-popular, mas na realidade, sectária no mais puro estilo «PREC» de há 30 ou mais anos atrás. Tudo somado, eles contentam-se em ser forças «de oposição» institucional, manobrando sindicatos, com um ou outro lugar no aparelho de estado central, nas autarquias, etc., mas sem a responsabilidade total do poder político.
    Eles sabem perfeitamente que não seriam autorizados a exercer uma parte do poder, sem terem de ceder em muitos aspectos da sua ideologia caduca. Teriam de se converter completamente em «esquerda neo-liberal», como voz «crítica» dum PS que detém a medalha da submissão ao grande capital, já sem laivos sequer de socialismo ou de social-democracia.
    A pequenez da política lusa acima resumida demonstra cabalmente a minha tese de que existe um país neo-colonial, com uma ou várias potências europeias (antes o Império Britânico, hoje o neo-império da UE, sob tutela dos USA).
    Perante isto, que é uma evidência, que têm a dizer os senhores e senhoras que se arvoram em «analistas» e «fazedores de opinião»? Nada; continuam a assobiar para o lado, pois eles sabem que há verdades inconvenientes; nem que seja para «negar» os meus argumentos, preferem estar calados, pois seria muito complicado sair fora das «regras» do jogo.
    Regras não ditas, mas por todos/as bem compreendidas. Regra nº1: Vale falar do acessório, nunca do essencial. Pois o essencial implica a denúncia dos seus verdadeiros patrões e eles/elas não querem desagradar aos mesmos, têm destes o sustento, o tacho e a promessa de participar no rega-bofe… à custa dos mesmos de sempre, dos excluídos, dos espoliados, do «bom povo» que serve para ir, «cheio de fé», votar nas próximas eleições.
    É assim que se mantém a choldra, a chusma, bem-educada, polida, sem nada que a distinga da intelectualidade de Paris, Roma, Londres ou Nova Iorque… mais outro aspecto típico das burguesias dos países neo-coloniais.
    Mas, infelizmente, quem não tem nada a ganhar com este jogo ainda continua a deixar-se embalar pela ilusão de que algo de novo possa surgir em resultado do circo eleitoral.
    Não há salvação dentro do regime, nem sequer remendo, porque o regime está podre. Não tem salvação ou remendo, porque o próprio regime impede a transformação necessária. Não há transformação possível sem uma mudança de mentalidades e esse primeiro passo deveria partir das «elites».
    Mas o que são as elites neste país? Serão verdadeiras elites ou apenas uma casta parasitária que pavoneia as suas vacuidades como se fosse pensamento?
    Num país sugado até ao tutano por mais de dois séculos de domínio neo-colonial, não existe burguesia empreendedora, apenas estado-dependente, apenas parasitária!
    Neste país neo-colonizado não existe tão pouco classe trabalhadora autónoma, independente, produzindo o seu discurso, com os seus contra-poderes próprios; temos antes uma classe trabalhadora escravizada por obra e graça do reformismo, quer ele se exprima em partidos ditos «operários» ou em centrais sindicais completamente vendidas, porém arvorando os símbolos e aparências da luta de classe, para melhor entregar os trabalhadores, de pés e mãos atados, aos patrões e ao governo.
    Não podemos esquecer que os sindicatos em Portugal se comportam como uma espécie de guarda avançada dos partidos que os manobram.
    Um país neo-colonial que se afoga no marasmo porque não quer reconhecer os seus enganos profundos, porque prefere continuar a viver na «doce ilusão», em vez de construir a sua própria sociedade civil independente, autónoma dos partidos e do estado.
    Não existe cultura nem vida democrática; tudo é absorvido pelo espectáculo do «desporto rei».
    O futebol é o local geométrico onde se cruzam todos os discursos, todas as intrigas de poder, o imaginário colectivo de um povo suspenso na bota do jogador super-heroí que vem «resgatar» a «honra» de um povo… O super-homem que o vai fazer vibrar, vivendo, nas glórias e desventuras do seu herói futebolístico do momento, a pseudo-afirmação de uma identidade «nacional», há muito alienada, de qualquer maneira.
    Basta ver a subserviência caricata dos portugueses a tudo o que seja estrangeiro, para se compreender que eles estão totalmente descrentes da sua identidade ou só a afirmam como servos dos «poderosos», muito orgulhosos de serem considerados um «povo gentil, afável, hospitaleiro». Basta-lhes viver na apagada e vil mediocridade. Portugal, como local de férias barato, para a classe trabalhadora dos países mais ricos do continente europeu. Tudo isto configura o complexo neo-colonial deste povo.
    Apenas a sua tomada de consciência poderia ser ponto de partida para sacudir o jugo bissecular da opressão, mas isso não pode ser realizado desde o cimo por uma «elite» ilustrada, que não existe.
    Há apenas uma «burguesia compradora», ou seja, que aproveita as migalhas da exploração deste povo, exploração essa que continua a beneficiar os de sempre: grandes consórcios capitalistas internacionais, grandes potências que se servem de Portugal como de um súbdito (veja-se o caso dos Açores e de todas as bases e interesses da NATO).
    Portugal efectivamente pertence aos se aproveitam das pescas, da agricultura, dos minerais e de todas as actividades produtivas para fazerem chorudos negócios.
    Quando já nada restar das riquezas naturais deste país, ainda haverá para explorar um povo semi-analfabeto, o eterno emigrante, capaz de trabalhar sem pedir muito, para voltar um dia à sua aldeia ou vila, para aí viver a sua reforma como um fidalgo, não lhe interessando o que aprendeu na estranja…

    Não existe, decerto, qualquer solução colectiva dentro deste regime. Apenas com a destruição completa, total e irreversível do sistema de exploração capitalista, poderemos viver como um povo, entre os restantes povos, fraterno e capaz de viver por si, amando sua história e seu território, mas de um amor não possessivo, não egoísta. Como o amor de uma mãe orgulhosa por ver seus filhos e filhas capazes de perpetuar a sua memória, capazes de continuar e enriquecer uma cultura milenar em todos os domínios, das artes às ciências, da produção material à produção espiritual.
    Temos portanto de ter um enorme desejo de realização dessa pátria utópica mas alcançável, de uma pátria realmente de todos. Isso só pode ser possível na ausência de capitalismo, experimentando formas colectivas de gestão (autogestão) generalizadas a todas as áreas da produção e da sociedade.
    Sem esta perspectiva, não existe política de libertação, de emancipação, de autonomia e de poder democrático da classe trabalhadora.

    Espero que critiquem muito este escrito, pois a discussão é necessária e eu não estou fechado a ouvir e ler vossos contra-argumentos. Estou profundamente convencido da veracidade do quadro que pintei acima e também tenho real esperança nos caminhos que aponto. Mas sei que as soluções aos graves problemas referidos são necessariamente colectivas e, por isso mesmo, anseio ler as vossas opiniões.

    Solidariedade,
    Manuel Baptista

  6. 24 Abril, 2009 às 3:25 pm

    Sem deixar de estar de acordo no essencial que referes continuo a pensar que o cerne da questão está em saber até que ponto as pessoas (Povo) estarão na disposição e vontade de alterar por vontade própria (ou não) o estado vegetativo em que a grande maioria se encontra, anestesiadas que estão pelo bombardeamento consumista e diário dos meios de comunicação e dos instrumentos ao serviço do capitalismo. Será que a grande maioria da população estará receptiva a políticas de emancipação individual e colectiva? Neste momento não o creio de todo, apesar de acreditar que começa a existir uma certa franja que poderá eventualmente manifestar alguma abertura para uma evolução da consciência política/social e individual.
    No entanto, creio que sem cortar de vez com o marketing “globalizado” do materialismo e, num contexto presente, em que os valores humanos e sociais neste país se reduzem muitas vezes a zero evidentemente não indossociados do que se passa à escala mundial essa tarefa se apresenta no momento herculiana.
    Sinceramente, olhando com olhos científicos para alguma da fauna que me rodeia não consigo enxergar de que forma se poderá alterar a alienação em que certos exemplares racionais (serão?) vivem. Quanto a este item estou extremamente pessimista, se calhar porque também sou português… (lá está o círculo vicioso…)
    E neste aspecto diria que será quase uma missão impossível a breve prazo, a menos que exista uma alteração política/ideológica/económica significativa a nível global, ou então uma nova vanguarda iluminista lusitana surgida do nevoeiro que relance novos conceitos, ideais e valores que se propaguem contagiosamente pela populaça.
    Mas, é claro que é preciso encontrar alternativas, radicais ou não, se bem que neste momento sem a utilização do “radical” me custe muito vislumbrar como…

    Saudações do Marreta.

  7. Manuel Baptista
    24 Abril, 2009 às 10:10 pm

    Marreta, escreves:

    …continuo a pensar que o cerne da questão está em saber até que ponto as pessoas (Povo) estarão na disposição e vontade de alterar por vontade própria (ou não) o estado vegetativo em que a grande maioria se encontra, anestesiadas que estão pelo bombardeamento consumista e diário dos meios de comunicação e dos instrumentos ao serviço do capitalismo.

    Pois bem, esta formulação acima é circular.

    Como é que as pessoas se desalienam; pelo auto-empossamento. Não pelo «esclarecimento» apenas … este, tem a ver com a parte racional dos indivíduos; o auto-empossamento tem a ver com a tomada de responsabilidade sobre si próprio; o conduzir a sua vida, adoptar esta ou aquela postura por auto-determinação própria, não apenas e exclusivamente em reacção a algo exterior.

    Ao nível colectivo, claro que podem colectivos como o do «libertário», se formar, se desenvolver, actuar dentro das linhas que definiram para si próprios; entrar em rede com outros colectivos afins, para realização de iniciativas conjuntas.

    Nós não devemos preocupar-nos em «salvar o país» ou «em salvar o povo».
    Devemos sim saber como agir para que os nossos objectivos sejam alcançados. Temos também de ser realistas e NÃO pedir o impossível às nossas próprias forças, a nós próprios/as.
    Se queremos ter um papel COLECTIVO neste cenário sempre em movimento, temos de aceitar discutir com vista a atingir um estado de consenso suficiente para se chegar a uma plataforma de acção.

    O primeiro passo é realmente discutir o que pretendemos:
    pretendemos todos uma emancipação das pessoas em relação à escravidão moderna do salariato? pretendemos todos que seja verdade a igualdade de direitos? analisamos todos de mesmo modo, genericamente, o que se passa no país e no mundo? tiramos todos as consequências necessárias da análise?
    estamos certos de que não faz sentido nos colocarmos como vanguarda iluminada, capaz de guiar os trabalhadores? e muitas mais questões haveria!

    Parece-me importante que se concentre a discussão num ponto de cada vez.

    É Portugal um país de tipo neo-colonial? O que quer dizer isso? Que consequências tem esta constatação para a leitura do que se passa interna e internacionalmente? Além da leitura ou diagnóstico, podemos desde já ensaiar pistas para mudar a situação a nosso favor (pressupondo que queremos todos chegar ao mesmo).

    Solidariedade,
    Manuel Baptista

  8. 24 Abril, 2009 às 11:26 pm

    “Ao nível colectivo, claro que podem colectivos como o do «libertário», se formar, se desenvolver, actuar dentro das linhas que definiram para si próprios; entrar em rede com outros colectivos afins, para realização de iniciativas conjuntas.”
    É evidente que este tipo de colectivos pode ter e tem um papel importante, mas quantas pessoas do “povo real” terão acesso e visionarão sites deste tipo e de outros idênticos na internet?
    Para se ter uma noção da realidade deste país acrescentaria que em várias aldeias do interior beirão ainda nem sequer existe água canalizada e rede de esgotos, mais ainda, num caso particular que conheço, posso afirmar que numa cidade de 70.000 habitantes, sede de distrito, a parte velha da cidade, em pleno século XXI, não possui rede de esgotos. Que podemos esperar destes cidadãos confinados ao Cavaquistão profundo, em que o abastecimento diário de água potável ainda é feito de cântaro à cabeça através da fonte da aldeia? Esperar-se-á que esta gente, o verdadeiro e real povo deste país possa aceder à internet, aderir ao simplex ou preencher a declaração de IRS pela internet, quando a grande parte nunca sequer viu um teclado à frente?
    Estaremos a falar do quê? Duma “comunidade” que tem a sorte e o privilégio de poder ter em casa internet de banda larga, comunicar através dela e discutir aquilo que quem permanece no mais profundo alheamento cultural/educacional não terá acesso nem tão pouco lucidez intelectual para poder discernir o que se discute?
    Tomara eles que a terra produza o suficiente, e que a União Europeia não se lembre de cortar as quotas, para daí arrecadarem o sustento necessário à sobrevivência.
    Ou estaremos a falar de uma elite ainda mais acarneirada que rege as suas vidas pela ambição de possuir um modelo automóvel superior ao do vizinho, um télélé de uma geração mais avançada do que a do colega de trabalho ou calçar uns calcantes mais caros (mas evidentemente pagos a prestações, como tudo o resto aliás) que a concorrência da rua ou praceta onde vive?
    Poder-se-á delinear uma estratégia evolutiva de consciencialização quando vivemos num país pleno de corrupção, compadrio, lambe-botismo, chibaria, lóbi e outros cancros tais? Poderá alguma vez este povo emancipar-se intelectual e culturalmente de uma forma pedagógica sem recorrer a medidas extremistas contraproducentes com os fins almejados?
    Não creio sinceramente que possa ser conseguido tão celeremente, e digo-o penosamente, pois diariamente constato que a tarefa será extremamente difícil e árdua, ainda evidentemente que possível.
    A discussão é possível e necessária mas passar a mensagem de uma forma abrangente e acertiva é que me parece mais complicado. No entanto, a verdade é que é necessário começar por algum lado, e sendo assim comece-se por aqui e que se colham os frutos nem que seja daqui a 100 anos.

    Saudações do Marreta.

  9. Manuel Baptista
    25 Abril, 2009 às 9:55 am

    Marreta,

    As pessoas são capazes de interagir, com mais ou menos tecnologia de permeio, se tiverem vontade para isso e se estiverem convencidas de que são capazes. Se eu vivesse numa zona sem saneamento básico, tentava organizar com outras um movimento de base, popular, assembleário, para reivindicar junto do município o investimento e obra há muito devidos.
    É uma ilusão de urbanos, com muitas complicações na cabeça, pensar que os que vivem em meios rurais ou em meios menos tecnologizados estão incapazes de se auto-organizar.

    Quando escreves:
    «Poder-se-á delinear uma estratégia evolutiva de consciencialização quando vivemos num país pleno de corrupção, compadrio, lambe-botismo, chibaria, lóbi e outros cancros tais? Poderá alguma vez este povo emancipar-se intelectual e culturalmente de uma forma pedagógica sem recorrer a medidas extremistas contraproducentes com os fins almejados?»
    Noto que usas o termo «consciencialização», «estratégia de consciencialização».
    Se o 25A e o que se seguiu servem para algo, será para não caírmos nos mesmos erros. Ora, a meu ver, uma mentalidade muito predominante nos meios da esquerda «revolucionária»(?) dessa época era de que eram precisas campanhas de dinamização cultural para «justificar» e fazer avançar a revolução de Abril, para trazer «esclarecimento» a esse povo inculto, a esse povo analfabeto, etc. Ora, eu participei nessa época num grupo de estudantes composto por pessoas sem uma filiação partidária (pelo menos, óbvia e ostensiva) e com diversidade de vistas, na animação cultural junto de crianças de um dos maiores bairros de lata que havia então junto de Lisboa, o Bairro da Bela Vista, na estrada de circunvalação. Foi uma experiência enriquecedora, com os jovens a auto-criarem uma peça de teatro e representá-la, a construírem instrumentos musicais com canas, madeira, plásticos, latas, etc… Depois, tive outra experiência enriquecedora no bairro da Boavista (em 77-78) onde havia problemas sociais muito agudos mas não se tinha ainda transformado em «supermercado» da droga, como depois aconteceu. Aí as aulas de alfabetização na Soc. Rec. Mus. Verdi tiveram dificuldade em avançar pois havia a concorrência da telenovela, que mantinha as senhoras afastadas não havendo possibilidade prática de se obter uma diferenciação de horários das sessões que agradasse a todos/as.
    Em ambas as situações, com o sucesso e limitações inerentes, o que ao fim e ao cabo se afigurou mais importante foi a capacidade de auto-empossamento, de auto-organização como determinantes para que o projecto avance. Em nenhum caso nós tivemos sensação de sermos considerados «não-desejáveis» pelas pessoas de classe manifestamente diferente da nossa. A nossa atitude não era paternalista, não íamos lá para vender a «banha da cobra» dos partidos, o que tornou rapidamente muito fluída a comunicação recíproca (e também uma boadinâmica interna, no grupo de dinamização cultural). Mas, em Portugal, essas experiências inovadoras do ponto de vista social, que foram da ordem dos muitos milhares e tiveram provavelmente milhões de pessoas envolvidas, foram varridas com a instalação da partidocracia como queria o Mário Soares e os poderes que o tinham projectado como líder do regime (desde o SPD alemão, até aos grandes grupos multinacionais com sede nos EUA, financiadores das campanhas e dos operacionais da CIA, até uma burguesia nacional ligada à maçonaria, etc… ): Soares queria fazer de Portugal uma «partidocracia» e conseguiu. Disse-o muito claramente, na altura. Isso não chocou muita gente, agradou até aos que pensavam que o partido deles (não o ps) seria capaz de derrubar o poder PS: estavam enganados. Mas, sem dúvida, que tivessem conseguido o «golpe» (legal ou ilegal, violento ou pacífico, isso não importa para aqui), o desfecho seria ainda mais sombrio que o que tivemos, possivelmente: uma espécie de Cuba do ocidente europeu seria uma miséria, um factor de destestabilização para a ordem mundial de então, que acabaria com certeza numa invasão e banho de sangue. Lembremos que Brejnev se opôs a isso (verão de 75).
    Portanto, «comemorar abril» sem criticar os erros dos que abriram (e fecharam) as sendas que potencialmente poderiam conduzir à emancipação, auto-empossamento do povo explorado, dos proletários e camponeses, é trair a memória desses dias maravilhosos, mais uma vez.
    Infelizmente, a linguagem é um poderoso instrumento que permite esclarecer o pensamento; porém também serve propósitos menos claros. É com belas palavras que se «passa a esponja» sobre os crimes do fascismo-colonialismo, sobre as conivências óbvias do capital e da igreja com estes crimes. É com belas palavras «revolucionárias» que se pretende fazer esquecer o papel nada luzente que os diversos protagonistas ditos «revolucionários» tiveram, num processo…numa História com 35 anos.
    É tempo de fazermos a História do instante, compreender que face á voragem da nossa era, a História tem de ser escrita quase ao mesmo tempo que o acontecimento ocorre; o que coloca o problema do recuo e a da perspectiva para analisar os eventos, além da dificuldade de efectuar investigação exaustiva das fontes, num espaço de tempo muito curto.

    A nós não deveria interessar-nos muito o «daqui a 100 anos». Deveríamos estar centrados no aqui e agora; deveríamos começar por fazer um debate presencial, com quem quisesse e com uma certa periodicidade, com todos/as as/os que estivessem disponíveis para uma participação construtiva e responsável. O pior que há no «activismo» deste país é o cabotinismo, a falta de seriedade, de propósito, de coerência entre o discurso e a prática. Trata-se de fazer um debate para a acção e não um debate EM VEZ DE acção.
    Eu acho que o anarquismo (ou seja, o campo da esquerda libertária e anti-autroritária, por outras palavras) é um modo de acção, muito mais do que uma ideologia.

    Solidariedade,
    Manuel Baptista

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