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Portugal, de colonizador a neo-colónia

imperialismo00Imagem daqui

O regime de Portugal tem uma grave doença que precisa de ser diagnosticada.

Tenho reflectido sobre os rumos da democracia em Portugal; cheguei à conclusão de que o problema é que se trata de uma enfermidade não diagnosticada, ou um diagnóstico feito mas não reconhecido pelas gentes.

Portugal, desde há pelo menos 200 anos, passou de país colonizador a país colonizado, submetido por várias potências: primeiro a Grã-Bretanha, depois pelos países ricos da UE, com participação dos EUA.

Tudo se pode compreender melhor, incluindo a enorme quantidade de corrupção e falta de vergonha da classe política, se virmos este país como uma vulgar neo-colónia, seja do continente sul -americano, seja africano.

De facto, esses países têm (ou tiveram) regimes que até podem ser formalmente democráticos, mas onde uma pequena oligarquia manda, usando políticos corruptos para fazer o jogo da representação e manter assim o povo quieto.

Quando este projecto começou a germinar dentro de mim, percebi imediatamente que ele se devia a uma enorme frustração pelo que vejo e me apercebo do meu país. Pensei que tantas pessoas como eu têm vindo a exprimir essa raiva e frustração por tudo o que se está a passar aqui e agora. Mas a raiva, a indignação, a revolta, somente são algo de positivo, se desembocarem numa procura efectiva de solução para os problemas. Caso contrário, são apenas uma razão suplementar para amargar, para azedar interiormente. É por isso que lanço este apelo.

Existe um falhanço histórico da intelectualidade, das pessoas que têm maior responsabilidade, porque detêm saberes e meios de os divulgar. Os académicos, os docentes, membros de profissões em contacto diário com um vasto público, têm especial responsabilidade em explicar o que se passa. E têm essa responsabilidade porque detêm meios (os instrumentos, as ferramentas intelectuais) que os podem apetrechar a fazer a análise (diagnosticarem a doença) e desde logo a apontar caminhos para a «cura» ou a esclarecer quais as opções se colocam.

É uma tarefa ciclópica, por isso eu sei que nunca a irei realizar isolado, com base nas minhas próprias forças… até porque tenho de ganhar o pão quotidiano e não posso descurar os meus deveres profissionais e outros. Mas, mesmo que dispusesse de uma infinidade de lazer, não seria bom tentar realizar este projecto a solo, desde já porque ele só faz sentido sendo colectivo; a questão que aponta é uma questão eminentemente colectiva (diz respeito a toda sociedade portuguesa) e, sobretudo, aponta para uma prática de discussão/acção que deverá ser colectiva.

Devemos nos despir das vendas ideológicas que nos tolhem a visão de problema, devemos perceber que estamos perante um fenómeno de ocultação não intencional, não deliberado. Não cabem aqui quaisquer «teorias da conspiração». O problema, tão simples na sua essência, é o seguinte: como se explica o atraso crónico e secular deste país, à beira-mar plantado?

Um país que poderia ser um «jardim», mas não é; mais parece um lugar de exílio ( «Pátria, lugar de exílio», para retomar um dos mais belos livros de poesia portuguesa do séc. XX). Vamos continuar A ASSOBIAR PARA O LADO E IGNORAR ESTE FACTO FUNDAMENTAL ou teremos a coragem de olhar a realidade em frente? Reconhecer que somos um antigo império (e antiga nação) convertido numa NEO-COLÓNIA, num país colonizado nas múltiplas vertentes; colonizado económica e politicamente, sem dúvida, mas que o é sobretudo porque um complexo mental, cultural se apoderou da nossa intelectualidade e do nosso povo, em geral?

Vamos perder os complexos estúpidos de «esquerda» e deixar de ter receio de sermos catalogados por idiotas como «nacionalistas», porque consideramos dever estar no seio do povo, que tem amor à sua pátria, à sua terra, amor esse totalmente justificado e que não anula, nem atenua, o olhar de censura que temos em relação à forma bárbara como uma (falsa) elite tem espatifado (literalmente) as oportunidades de desenvolvimento deste «cantinho luso»?

Nada mais estúpido do que estarmos preocupados com o «politicamente correcto», com «a conotação» que tem este ou aquele ponto de vista. Não devemos ter medo de errar, de sermos ridículos até, pois os que nos acham ridículos são, eles próprios muito mais, e são com certeza, porque se mantêm na estéril crítica destrutiva e «ad hominem», apenas preocupados em fazer valer o seu ponto de vista, para – afinal de contas – satisfazer a sua ambição de poder, de se pavonearem pelo «mundo», como «celebridades» de uma hora, num qualquer programa televisionado…

Considero que esta visão da história portuguesa marcada pela sua transformação em neo-colónia é totalmente evidente, para quem conheça razoavelmente a história dos últimos 200 anos. A ocultação sistemática, intencional desta história, dos seus mais relevantes factos, tem ocorrido: isto revela que cada tendência política e ideológica tenta distorcer a realidade, tenta enquadrá-la da maneira mais conveniente, para sustentar as suas teses.

Mas eu sei também que devemos tentar submeter as nossas hipóteses a uma verificação, para que o nosso trabalho seja credível, cientificamente fundamentado: qualquer hipótese, numa investigação deste tipo, pode e deve ser posta à prova dos factos, quer dos passados, quer dos presentes. Se a hipótese venceu com sucesso a prova dos factos (e somente neste caso), estamos perante uma construção defensável em termos científicos.

Há que responder, no inicio do percurso, a duas questões:

– Como se pode caracterizar um dado país ou povo como neo-colónia, como neo-colonizado? O que significa este termo? Em que situações tem sido aplicado? Que consequências tem sido extraído nos diversos casos que nos mostra a História contemporânea?

– Que sintomas, que indícios, de neo-colonização apresentam este país e este povo concretos? Quais os aspectos que aproximam Portugal de um retrato robot de neo-colónia? Quais os aspectos em contradição com tal visão? Serão tais contradições autênticas, genuínas, ou somente aparentes?

Assumindo os resultados desse primeiro duplo inquérito, teremos de avançar para uma explicação diacrónica sobre o desenvolvimento da patologia diagnosticada…Como se instalou? Como se consolidou? Como se perpetuou?

Precisamos de conhecer e avaliar a história económica, a sociologia, a história da cultura, da ciência, etc.

As respostas às perguntas genericamente formuladas acima, levarão logicamente a uma «terapêutica», ou seja, a tentar-se aplicar os conhecimentos adquiridos ao domínio da prática política e social.

Muitas pessoas abordam criticamente a realidade portuguesa e dizem «o mal está nisto», «o mal está naquilo…». Mesmo que tenham razão em absoluto nos males que apontam, a sua crítica é «sub-crítica» ou «pouco crítica», na medida em que ela traz implícita a cura, que seria a eliminação dos males, a eliminação dos sintomas e não da própria doença. Eu questiono a origem destes sintomas; a incultura é sintoma; a corrupção é sintoma, a falta de civismo é sintoma… sintomas de quê? Da existência de um complexo económico – político -cultural chamado neo-colonialismo. O facto de se reconhecer, não é a cura do referido mal, mas é um caminho para se estabelecerem as estratégias para sairmos deste processo degradativo, deste ciclo vicioso.

Com razão, várias pessoas têm notado que uma revolução que não se dirija à raiz dos males, apenas será uma sacudidela e depois tudo voltará a ser como dantes. Portanto, se queremos que as coisas mudem verdadeiramente e em profundidade, temos de ir ao âmago da questão: estamos ou não perante uma situação neo-colonial? Terá ou não pertinência um inquérito que se debruce sobre os parâmetros dos diversos âmbitos (político, cultural, económico, estratégico…) com vista a esclarecer o problema? Temos de nos pôr de acordo sobre a origem do complexo que atinge Portugal como se fosse uma maldição… de certeza que não se trata de um problema «endógeno» ou «genético» da nossa população. Nem vale a pena explicar que somos uma população geneticamente diversa, o que vai permitir múltiplas e diversas características. Nem vale a pena explicar que temos inúmeros exemplos de pessoas portuguesas ou de origem portuguesa radicadas no estrangeiro, que são exemplos de seriedade, de trabalho produtivo, às vezes de talento ou de génio, com elevado civismo e perfeita integração nas comunidades de acolhimento.

Acho que há um fenómeno curioso das pessoas que se interessam por política e sobretudo na «esquerda», de considerarem os problemas com um certo fatalismo, o que nos leva inevitavelmente para uma atitude atentista, sebastianista, de esperar que se dê uma revolução mundial para que algo mude em Portugal. Ora não tem que ser assim: muita coisa há que mudar no imediato. Podemos agir de forma interventiva, mas com um sentido de rumo. Esse rumo não pode mais ser traçado pelas cabeças iluminadas de uns intelectuais ou de um qualquer comité central (e ainda bem!). A solução só pode ser encontrada em diálogo, em redes horizontais, como as gentes das políticas de esquerda estão a descobrir agora, dez anos depois de serem generalizadas nos movimentos anti-autoritários de resistência e alternativa ao capitalismo globalizado.

O debate que pretendo lançar para a mesa é portanto muito importante, do meu ponto de vista, porque as políticas destinadas a emancipar o indivíduo e o colectivo, hoje em dia, têm de ser equacionadas numa série de patamares paralelos e não apenas de forma unidimensional. Podemos lutar contra o capitalismo sem lutar contra o estado e a sua organização que é o principal sustentáculo do mesmo? Obviamente que não, pelo menos não de forma coerente. Igualmente, podemos estar a focalizar a nossa luta e denúncia em fenómenos que são apenas os efeitos de uma deslocação do poder para centros distantes, por exemplo a Comissão Europeia, a NATO…

Como é que as pessoas se desalienam? – pelo auto-empossamento.

Não pelo «esclarecimento» apenas… este tem a ver com a parte racional dos indivíduos; o auto-empossamento tem a ver com a tomada de responsabilidade sobre si próprio; o conduzir a sua vida, adoptar esta ou aquela postura por auto-determinação própria, não apenas e exclusivamente em reacção a algo exterior.

Ao nível colectivo, claro que podem colectivos de libertários se formar, se desenvolver, actuar dentro das linhas que definiram para si próprios; entrar em rede com outros colectivos afins, para realização de iniciativas conjuntas.

Nós não devemos preocupar-nos em «salvar o país» ou «em salvar o povo». Devemos sim saber como agir para que os nossos objectivos sejam alcançados. Temos também de ser realistas e NÃO pedir o impossível às nossas próprias forças, a nós próprios/as.

Se queremos ter um papel COLECTIVO neste cenário sempre em movimento, temos de aceitar discutir com vista a atingir um estado de consenso suficiente para se chegar a uma plataforma de acção.

O primeiro passo é realmente discutir o que pretendemos:

Pretendemos todos a emancipação das pessoas, em relação à escravidão moderna do trabalho assalariado? Pretendemos todos que seja verdade a igualdade de direitos? Analisamos todos de mesmo modo, genericamente, o que se passa no país e no mundo? Tiramos – todos – as necessárias consequências da análise?

Estamos certos de que não faz sentido nos colocarmos como vanguarda iluminada, capaz de guiar os trabalhadores? E muitas mais questões haveria!

Parece-me importante que se concentre a discussão num ponto de cada vez.

É Portugal um país de tipo neo-colonial? O que quer dizer isso? Que consequências tem esta constatação para a leitura do que se passa interna e internacionalmente? Além da leitura ou diagnóstico, podemos desde já ensaiar pistas para mudar a situação a nosso favor (pressupondo que queremos todos chegar ao mesmo).

As pessoas são capazes de interagir, com mais ou menos tecnologia de permeio, se tiverem vontade para isso e se estiverem convencidas de que são capazes. Se eu vivesse numa zona sem saneamento básico, tentava organizar com outras um movimento de base, popular, em assembleias, para reivindicar junto do município o investimento e obra há muito devidos.

Tem sido uma ilusão recorrente dos urbanos, com muitas complicações na cabeça, pensarem que os que vivem em meios rurais ou em meios com menos tecnologias estão incapazes de se auto-organizar.

Devemos evitar o paternalismo, o elitismo implícito que vem à tona, muitas vezes (até inconscientemente, claro) quando se usam expressões como «consciencialização», «estratégia de consciencialização».

Se o 25A e o que se seguiu servem para algo, será para não cairmos nos mesmos erros. Ora, a meu ver, uma mentalidade muito predominante nos meios da esquerda «revolucionária» (?) dessa época (1974-75), era a de que as campanhas de dinamização cultural serviam para «justificar» e fazer avançar a revolução de Abril, para trazer «esclarecimento» a esse povo inculto, a esse povo analfabeto, etc. Ora, eu participei nessa época num grupo de estudantes composto por pessoas sem uma filiação partidária (pelo menos, óbvia e ostensiva) e com diversidade de vistas, na animação cultural junto de crianças de um dos maiores bairros de lata que havia então junto de Lisboa, o Bairro da Bela Vista, na estrada de circunvalação. Foi uma experiência enriquecedora, com os jovens do bairro a auto-criarem uma peça de teatro e representá-la, a construírem instrumentos musicais com canas, madeira, plásticos, latas, etc. Depois, tive outra experiência enriquecedora no bairro da Boavista (em 77-78) onde havia problemas sociais muito agudos mas não se tinha ainda transformado em «supermercado» da droga, como depois aconteceu. Aí, as aulas de alfabetização na Soc. Rec. Mus. Verdi tiveram dificuldade em avançar, pois havia a concorrência da telenovela, que mantinha as senhoras afastadas, não havendo possibilidade prática de se obter uma diferenciação de horários das sessões que agradasse a todos/as.

Em ambas as situações, com o sucesso e limitações inerentes, o que ao fim e ao cabo se afigurou mais importante foi a capacidade de auto-empossamento, de auto-organização como determinantes para que o projecto avance. Em nenhum caso nós tivemos sensação de sermos considerados «não desejáveis» pelas pessoas de classe manifestamente diferente da nossa. A nossa atitude não era paternalista, não íamos lá para vender a «banha da cobra» dos partidos, o que tornou rapidamente muito fluida a comunicação recíproca (e também uma boa dinâmica interna, no grupo de dinamização cultural). Mas, em Portugal, essas experiências inovadoras do ponto de vista social, que foram da ordem dos muitos milhares e tiveram provavelmente milhões de pessoas envolvidas, foram varridas com a instalação da partidocracia como queria o Mário Soares e os poderes que o tinham projectado como líder do regime (desde o SPD alemão, até aos grandes grupos multinacionais com sede nos EUA, financiadores das campanhas e dos operacionais da CIA, até uma burguesia nacional ligada à maçonaria, etc…): Soares queria fazer de Portugal uma «partidocracia» e conseguiu. Disse-o muito claramente, na altura. Isso não chocou muita gente, agradou até aos que pensavam que o partido deles seria capaz de derrubar o poder PS: estavam enganados. Mas, sem dúvida, caso tivessem conseguido o «golpe» (legal ou ilegal, violento ou pacífico, isso não importa para aqui), o desfecho seria ainda mais sombrio que o que tivemos, possivelmente: uma espécie de Cuba do ocidente europeu seria uma miséria, um factor de desestabilização para a ordem mundial de então, que acabaria com certeza numa invasão e banho de sangue. Lembremos que Brejnev se opôs a isso (verão de 75).

Portanto, «comemorar Abril» sem criticar os erros dos que abriram (e fecharam) as sendas que potencialmente poderiam conduzir à emancipação, auto-empossamento do povo explorado, dos proletários e camponeses, é trair a memória desses dias maravilhosos, mais uma vez.

Infelizmente, a linguagem é um poderoso instrumento que permite esclarecer o pensamento; porém também serve propósitos menos claros. É com belas palavras que se «passa a esponja» sobre os crimes do fascismo/colonialismo, sobre as conivências óbvias do capital e da igreja com estes crimes. É com belas palavras «revolucionárias» que se pretende fazer esquecer o papel nada luzente que os diversos protagonistas ditos «revolucionários» tiveram, num processo…numa História com 35 anos.

É tempo de fazermos a História do instante, compreender que face à voragem da nossa era, a História tem de ser escrita quase ao mesmo tempo que o acontecimento ocorre; o que coloca o problema do recuo e a da perspectiva para analisar os eventos, além da dificuldade de efectuar investigação exaustiva das fontes, num espaço de tempo curto.

A nós, não deveria interessar-nos muito o «daqui a 100 anos». Deveríamos estar centrados no aqui e agora; deveríamos começar por fazer um debate presencial, com quem quisesse e com uma certa periodicidade, com todos/as as/os que estivessem disponíveis para uma participação construtiva e responsável. O pior que há no «activismo» deste país é o cabotinismo, a falta de seriedade, de propósito, de coerência entre o discurso e a prática. Trata-se de fazer um debate para a acção e não um debate EM VEZ DE acção.

Se nos identificamos com o campo da esquerda libertária e anti-autoritária, sabemos que isso corresponde a um modo de acção, muito mais do que uma ideologia.

Quanto aos revolucionários românticos: queriam uma «nova revolução dos cravos», um novo «25 de Abril». Quantas vezes ouvimos isto?

Estamos perante um misto de queixume e de «alistamento metafórico», pois é em direcção ao passado, não ao presente nem ao futuro, que se dirige…


Mas será que é preciso alistamento, recrutamento? Mesmo metafórico? Será que no fundo se apela a uma «revolução» ou será que cismam por outro golpe de estado? Será que as pessoas de esquerda vão – de uma vez por todas – analisar friamente (e pôr-se em causa) a origem, o desenrolar e o epílogo – que estamos a viver – da chamada «revolução de Abril»?


Afinal de contas, há uma esquerda (quase toda) que é parte do problema, porque teima em não ver, não ouvir, não falar: Ela teima em cantar os estribilhos, teima em «pensar» por frases feitas, por slogans, em vez de ser crítica… o que significaria auto-crítica, pois ela teve o poder, ou – pelo menos – fatias não desprezíveis do poder, e ainda tem: se não o vê, é porque não lhe convêm!

– Será necessário ser-se um Ramalho Eanes para se proclamar o óbvio e daí tirar as devidas consequências? – «Os portugueses têm o governo que merecem, os partidos que merecem, as instituições que merecem» (declaração numa entrevista na rádio por ocasião do 25 de Abril de 2009) … Eu acrescentaria que esta construção é a obra visível da «esquerda»: ela (elas, se preferirem) nunca se pôs em causa.


Atente-se no episódio vergonhoso do 25 de Abril de 2007 (Repressão de manifestação libertária na rua do Carmo, ver em http://cravadonocarmo.wordpress.com).

Pense-se como agiu o Estado, primeiro pela polícia de intervenção, com plena cobertura do ministro da administração interna António Costa, depois com a fantochada do inquérito, em que José Magalhães, secretário de estado, tinha logo – à partida – a convicção de que a actuação da polícia esteve dentro das «normas de um estado de direito»! Estamos agora a assistir à farsa de um julgamento, num tribunal em que estão no banco dos réus as vítimas de uma repressão brutal e injustificada!

Mas ninguém, na esquerda bem-pensante, se sente incomodado/a com isto. É portanto a mentalidade autoritária (seja de «esquerda» ou de «direita») que é preciso questionar; como parte do problema, a todos os níveis.

A mentalidade autoritária está muito mais difundida do que aparenta.

Muitas vezes, cobre-se do «diáfano manto» da ideologia liberal, ou mesmo libertária. Esta mentalidade enxameia tanto as cátedras universitárias, como as secretarias dos partidos e sindicatos, os órgãos do poder legislativo ou governativo, aos municípios, sem poupar ONG, IPPS, etc.

De novo, aqui encontramos uma expressão e reflexo da situação neo-colonial multi-secular. Este autoritarismo que se nega em palavras, enquanto se afirma por variadíssimos actos, configura um complexo de culpa; uma enorme má consciência que se varre «para debaixo do tapete», vezes e vezes sem conta.

Os actores e actrizes do jet set político mediático não poderão nunca reconhecê-lo, tenham ou não límpida consciência disso; eles/elas «trabalham» exclusivamente para a sua imagem, a sua «guerra» é fazerem constante exibição do seu ego, no pequeno ecrã da TV, à qual querem reduzir a democracia, a vida pública, a cidadania.

No fundo, trata-se duma característica portuguesa muito especial que foi muito bem analisada por José Gil, a não – inscrição. Ou seja, artifícios para não agir.

O mais recente «acto de não-inscrição» prende-se com o episódio grotesco da atribuição do nome de Salazar à praça principal de Santa Comba Dão, por decisão da autarquia, governada por um eleito do PSD, partido com larga história de governo pós 25 de Abril e que se pode considerar um dos partidos constituintes (aprovou a constituição de 76). Posso compreender que não seja agradável, para as pessoas com ideologias de esquerda, que o poder local de Santa Comba afirme como digno de homenagem o ditador que aí nasceu. Posso compreender a jogada provocatória do cripto-salazarismo, na promoção deste acto, justamente, no chamado «Dia da Liberdade». Mas, o que já não posso aceitar (mesmo que compreenda) é que haja tolerância para com os que estão a fazer uma campanha bem pensada, bem orquestrada, para fazer aceitar um novo regime de medo, de terror, que fecham os olhos perante homenagens destas e não tiram (ou recusam tirar em público) as consequências políticas de tais actos.

– Ou o PSD é uma agremiação heteróclita de caciques, sem outra coesão interna, a não ser uma «fidelidade» a uma sigla destituída de conteúdo (existiria um PSD salazarista, um PSD liberal conservador, um PSD social democrata, etc., etc.) …

– Ou é uma estrutura, com uma orgânica, com uma certa cadeia hierárquica, com cargos mais elevados que outros. Se uma estrutura local deste partido tem veleidades que saem fora do ideário, do programa, etc. Deste partido ao nível nacional, então o que seria expectável? Não esperaríamos ver uma série de actuações internas, mas com eco para o exterior, com vista a corrigir o desvio. Parece que isto não se passou no caso da concelhia PSD de Santa Comba; pois esta comemoração muito «sui generis» do 25 de Abril de 2009 é certamente um processo com vários episódios muito bem conhecidos dos políticos locais e regionais (e com certeza também dos órgãos internos do PSD, pelo menos, muito provavelmente de todos os partidos!), antes mesmo de saltar para a ribalta do «fait accompli». Se foi orquestrado e preparado, como parece ser impossível de outro modo. Uma golpe de teatro destes não se improvisa… há uma conivência pelo silêncio, pela não-inscrição, das estruturas nacionais do partido.

Creio que isto demonstra a falta de coerência da chamada «democracia» portuguesa. Não sei quais serão as repercussões deste acto simbólico, estou muito mais preocupado pelo que significa: um balão de ensaio para uma reabilitação total e definitiva do fascismo lusitano, a sua mistificação, como época de governo enérgico, sábio, grandioso, patriótico, etc. Assim se assassina a liberdade… com a tolerância para com a propaganda das camisas negras (do duce) ou verdes (do Salazar).

Mas educação cívica não existe, não faz parte da «cultura política nacional»: não oiço nenhuma voz (à direita ou à esquerda) exigir explicações aos responsáveis políticos máximos do PSD: isto seria lógico. Mas implicaria por parte dos partidocratas, que perdessem os potenciais parceiros de coligações pós eleitorais em autarquias, por exemplo, pois seria difícil conviver em coligações com aqueles que são, no mínimo, coniventes com a campanha de branqueamento dos crimes de Salazar e dos agentes (políticos, administrativos, policiais…) do seu regime.

Neste país, a incultura passa por virtude. O ataque à Escola Pública, veio disfarçado como «reforma» para melhorar a escola: é visto com simpatia por muitas pessoas, nomeadamente, pelas de menor formação cultural que se sentem «lesadas» por aquilo que consideram privilégios da «classe» docente.

Nomear uma «classe» profissional como bode expiatório, foi uma atitude logo tomada pelo poder PS, tanto mais que se tratava de quebrar o estatuto que conferia uma certa dignidade, porque oferecia certa garantia de estabilidade e de progressão na carreira dos docentes. Foi este estatuto da carreira docente não universitária destruído e transformado num instrumento que eu caracterizei como «estatuto de escravidão docente».

Nenhum sindicato de professores se atreveu a subscrever um documento tão ofensivo para os seus representados, após um simulacro de processo negocial.

Mas, na base, os professores, embalados num sonho (ideológico) de «escola democrática», de «escola do 25 de Abril», não viram logo o que lhes tinha presenteado o poder PS, senão quando se desenrolou perante os seus olhos horrorizados a kafkiana máquina da «Avaliação de Desempenho».

Os protestos atingiram uma amplitude inédita no nosso país. Os professores mais velhos compreenderam que estavam a retirar-lhes uns restos de dignidade que ainda conservavam, mau grado os ataques mediáticos e no terreno, por uma campanha orquestrada contra eles, transformados, pela voz da «autorizada» ministra da educação e seus acólitos, «nos responsáveis» pelos fracassos do sistema educativo pós-25 de Abril.

A ilusão da política espectáculo continuou, com a transformação/abastardamento de uma luta legítima e necessariamente dura, porque não seria logo compreendida e apoiada pelos restantes sectores.

As ilusões foram inoculadas, como de costume por intermédio dos canários, papagaios e outras aves dos partidos, metidas no meio da multidão dos professores, incutindo-lhes a ideia peregrina de que o processo «somente teria uma saída política». Evidentemente que isto é falso.

O processo nunca terá saída política; se tiver saída, será graças à luta social (não política) e auto-empossamento de todos, mas mesmo de todos, ou seja, incluindo os encarregados de educação, os estudantes, os funcionários não docentes e não apenas os docentes.

Foram inúteis os avisos à navegação que fiz em várias ocasiões; preveni contra o manobrismo político das direcções sindicais, apenas e exclusivamente apostadas em avançarem com os interesses eleitorais e a curto prazo das suas respectivas facções e partidos; da hegemonia destes «partidocratas» sobre os sindicatos – teoricamente – instrumentos de auto-empossamento dos trabalhadores; da necessidade nos sindicalizarmos, para fazermos vingar os nossos pontos de vista dentro das estruturas que tinham real poder e meios de levar a cabo o combate; mas em vão…

Como tem sido costume e como eu tinha previsto, prepara-se uma simulação de «luta», de «combate», uma encenação para deixar «contentes» os militantes sindicais, a «massa» dos professores descontentes, mas para canalizar este descontentamento, esta energia de mudança para as urnas.

Com enorme desplante, estas mesmas pessoas, vêm dizer que não querem que «esta luta morra na praia», depois de a terem esvaziado, de terem desperdiçado, em sucessivas ocasiões, a onda de protestos!

Há aqui lugar para nos questionarmos sobre a auto-infligida impotência de uma população de «esquerda», com saber académico (quase todos com o grau de licenciatura, no mínimo), que não reconhece a realidade da manipulação política, não vê que o combate deve incluir a apropriação das estruturas sindicais, para serem realmente nosso instrumento de luta. É uma população de «esquerda» sentimental, mas não é de esquerda no sentido crítico, na análise crítica que possa fazer da realidade.

Assim, verifica-se a «castração», no complexo de país neo-colonial, dos estratos de classe charneira, da pequena burguesia, onde tem importância estratégica o professorado, visto que o quotidiano das escolas é moldado, num grau muito elevado, pela mentalidade difusa que este corpo docente exprime.

Este país tem uma cultura provinciana, como se pode verificar pela vida cultural em geral, em particular da capital e das suas principais cidades. Na capital, a cultura viva, que se poderá medir, numa primeira aproximação, por conferências, espectáculos de teatro, bailado, música de qualidade, tem uma dimensão tão pequena como a de uma pequena/média cidade de província como Limoges (França) ou outras de igual perfil demográfico e económico, na Europa «rica».

Nesta cultura demasiado estreita, avultam as modas; elas tomam conta da cena mediática, sendo assim como vagas sucessivas, que anulam os esforços de quaisquer outras correntes estéticas e ideológicas que as tenham precedido ou que tentem singrar. Dá-se portanto um fenómeno de monopolização do espaço público, com «figuras» do momento, cuja obra, por meritória que seja, é amplificada de maneira desmedida pelo «média dos média», a televisão. Assim, na literatura, na filosofia, como em quaisquer domínios das artes, prevalece a procura de agradar aqueles que estão numa posição de controlo dos media mais poderosos: nos grandes diários e semanários, ou nos vários canais da TV, com os seus responsáveis por programas de índole «cultural».

Assim, as pessoas mantêm-se sistematicamente alheadas do fluxo cultural que fervilha pelo mundo fora, não apenas pela Europa «rica», como também pelos países europeus de leste, pelos países do chamado «terceiro mundo», que são, na verdade o resto do mundo.

O português «médio» é consumidor de filmes de Hollywood, conhece a vida das «stars» americanas, tem uma cultura de música «ligeira» (pop, rock, etc.) exclusivamente anglo-saxónica. Tem poucas leituras, quando lê. Nos livros «escolhe», quase exclusivamente, aparecem «best-sellers», traduzidos para português, mas sem porém se incluir coisas tidas como mais «indigestas». Tudo o que seja crítico, ou de esquerda dita radical, mesmo Noam Chomsky ou Naomi Klein, para citar apenas dois exemplos de autores muito conhecidos internacionalmente, que foram traduzidos em português, tem vendas bastante modestas.

As leituras para adolescentes resumem-se às traduções da série do «Harry Potter», seguida de livros ainda mais convencionais e conservadores na ideologia, como os da autora do «Crepúsculo», uma saga de vampiros «bem-comportados» e bem do agrado de uma «América» dos anos Bush.

Num país neo-colonial, a cultura é quase toda de importação, mas existe uma vontade política do Estado em fazer crer que existe cultura própria: assim, nas escolas, é obrigatório ler-se um certo número de autores portugueses. São esses livros de leitura obrigatória ou «aconselhados» que permitem manter em vida o mercado editor e livreiro.

O grande público apenas consome livros publicitados em campanhas caríssimas – apenas realizáveis pelas grandes editoras – ou vai comprar um livro no qual está baseado tal ou tal sucesso de cinema (em geral, de Hollywood).

Num país neo-colonizado, não existe cultura autóctone, mesmo nos estratos populacionais que não beneficiam dos privilégios de classe com acesso a bens culturais que são largamente de importação ou produzidos localmente mas destinados a uma pequena «elite», à partida.

O «povo» contenta-se com a música popular de nível mais medíocre que se possa imaginar, os programas de «humor» das televisões são de um nível confrangedor, em regra. Não vale a pena estarmos a desfiar demasiados exemplos, todos em Portugal os conhecem. Não existe cultura popular genuína, porque aquilo que se produz como cultura «popular de qualidade» é – de facto – música, poesia, etc., feita por artistas com um perfil mais de «canto de intervenção», da onda pós-25 de Abril do «poder popular»: na realidade, artistas e intelectuais com bastantes conhecimentos do folclore nacional, que transpuseram (por vezes com muito talento) as características de uma cultura rural totalmente desaparecida (como as próprias comunidades rurais que estavam na origem desta cultura) para a canção urbana.

Ao nível da ideologia, da filosofia política, do pensamento político em geral, as «modas» além de serem importadas da Europa e EUA, são uma «apropriação» serôdia pelos actores/actrizes da tragicomédia política que é a vida pública deste país.

Se tivéssemos de escolher um cenário para um Lilliput das ideias, seria muito provável que a escolha recaísse sobre este rectângulo à beira-mar plantado. Aliás, toda a «classe política», como ela própria se costuma designar, se resume a umas centenas, uns poucos milhares de figuras, a maior parte das quais é apenas «célebre» na sua vila ou num determinado sector de actividade, muito aquém das estrelas do futebol.

O futebol, a «bola», esse é sim o espectáculo-rei, destrona qualquer «paixão política». Poderemos ver isso, simplesmente olhando para os infinitos comentários na TV, quando se avizinha ou aconteceu um jogo importante, ou ainda para a ausência notória de uma grande parte do trânsito nas estradas, à saída das cidades maiores, que se explica pela debandada para casa mais cedo para ver o tal jogo.

Todos os «actores políticos» concordam que a «Europa» é um factor fundamental (de forma positiva ou negativa) para as políticas nacionais. As eleições europeias sucessivas são sempre as com menor participação no voto (da ordem de 60% de abstenção). Reforçam o sentimento de que este sistema político não tem nada a oferecer, senão umas cadeiras douradas a alguns «eleitos do regime» que têm assim a sua «justa recompensa» por terem andado anos a fio a enganar o Zé Povinho, a vender-lhe a «banha da cobra» do seu respectivo partido e que portanto recebem como prémio serem membros desse areópago que é o parlamento europeu.

Num país de regime neo-colonial, o povo não é mais «estúpido» ou «inteligente» que em qualquer país não dominado. Apenas poderá ser menos informado, menos culto. Porém, possui muita sensibilidade prática, não confia nos dizeres de actores políticos que se desfazem em promessas, mostram «obra» mas que é apenas fancaria e que têm no fundo imenso desprezo pelo povo, dizendo que são seus fiéis servidores.

Felizmente, creio que o povo português, apesar de muito conservador nalguns aspectos, é possuído por uma grande paixão de igualdade e de justiça e sabe, de modo confuso que «os políticos» se estão a servir do estado em seu benefício próprio, não para servir o povo, como eles o proclamam.

O povo está habituado a «desenrascar-se» por si só; a confiar nas redes de amizade, de família alargada, etc.

Estes são os fios que tecem a estrutura social profunda; sobre as quais se vêm estampar cores partidárias, mas que apenas são mais um fio do tecido.

Os problemas de corrupção ao mais alto nível (e a todos os níveis igualmente) do aparelho de Estado são vistos com um misto de indignação e de fatalismo, porque as pessoas assimilam estas trocas de favores com as pequenas trocas de favores, o «conhecer» alguém nesta ou naquela posição dentro de uma repartição pública, pode desempenhar um papel importante na vida de muitos cidadãos.

Tais compadrios não são vistos como criminosos, nem abusos sequer, pois todos recorreram a eles, em tal ou tal ocasião. O cidadão comum tem portanto tendência a ser indulgente perante o político que «facilitou» a aprovação de tal ou tal obra.

O político profissional, além de ser alguém que «agrada» subjectivamente, como um actor preferido, é visto como «outra espécie», como alguém para quem a lei comum não se aplica. Alguém que vive numa esfera diferente da real, pios está sempre a aparecer no espaço hiper-mediatizado da política.

Os que trabalham a imagem de José Sócrates e do seu governo perceberam perfeitamente isso e orientaram o seu desempenho para uma mediatização e uma personificação extremas do discurso político.

O discurso de Sócrates apela sempre a sentimentos, a uma sinceridade (falsa, mas que é bem encenada). A encenação precisa de bufões como o inenarrável ministro Mário Lino, ou de pessoas que irradiam antipatia como a ministra Mª de Lurdes Rodrigues.

Só assim ele pode sobressair – por contraste – como um «verdadeiro» homem político, aquele que – na realidade – é apenas a marionete de obscuros interesses e de interesses menos obscuros mas que se mantêm na penumbra. A sua política tem sido uma sucessão de recuos sociais, obedecendo ao dogma neo-liberal, para além de qualquer expectativa que se pudesse ter dele e do seu partido, no momento da sua eleição, há 3 anos e meio.

Os políticos, em regimes neo-coloniais, não se sentem nada presos à palavra dada ao eleitor; sabem que aquilo que os sustenta no poder é a sua fidelidade (vassalagem) à potência/s dominante/s. No caso português, não é necessário ir buscar muito longe, nem ser um «águia» em política, para se perceber que os patrões de Portugal são os países ricos da EU e os EUA.

No essencial, aquilo que tem acontecido a Portugal deve ser entendido como sendo decorrente do papel geoestratégico que lhe está reservado, na nova ordem mundial, instaurada com a uma NATO triunfadora do Pacto de Varsóvia, num mundo unipolar.

Para consolidar essa dominação mundial, os donos deste mundo unipolar precisam de demonizar outras culturas, outras civilizações, fabricando, tanto quanto for necessário, o cenário artificial dum choque entre civilizações (avançado pelo politólogo reaccionário Hungtington).

O papel desempenhado por Portugal no cenário para a II guerra do Iraque; o de auxiliar da NATO, na Bósnia ou no Afeganistão, não deixam dúvidas. É típico de países neo-colonizados, as suas tropas servirem como auxiliares para as guerras da grande potência, sempre sob o quadro fictício de uma «aliança».

Não apenas se deve reconhecer que Portugal é um país neo-colonizado, como apenas fazendo-o, se consegue perceber o papel que ele é obrigado a desempenhar, dentro do contexto da ordem unipolar saída da guerra fria. Trata-se de ter em conta este facto político básico, fundamental.

Em segundo lugar, devemos questionar-nos porque motivo este discurso não tem eco, porque não suscita debate, porque há um «silêncio ensurdecedor» em torno deste tema. É um autêntico «tabu», pois nem sequer é referido como o sendo! Mas é, com certeza! A sua justeza pode ser aferida pela «arte» de omissão, dos diversos actores da política, em especial dos que se dizem não totalmente rendidos ao neo-liberalismo.

Quando ruiu o que se habituou a considerar o «socialismo real» (na verdade, apenas um capitalismo de estado, totalitário) a esquerda ficou órfã, não de uma ideologia, mas de uma motivação prática.

Como não se pode vera si própria senão como «gestora» de um estado, por hipótese um estado «socialista» onde estão nacionalizados os principais meios produtivos, ela tem tendência a associar-se à construção do super-estado europeu, mesmo quando se apresenta «crítica» em relação ao seu projecto de cunho inegavelmente neo-liberal.

Mas esta esquerda institucional está amarrada a uma crítica «estatista» e «nacionalista», de um estatismo e nacionalismo totalmente desadequados, fazendo até concorrência ao nacionalismo de direita, o nacionalismo sem peias, que pode arvorar-se em «defensor dos pobres» face a uma esquerda tímida e sem clara âncora de classe.

Uma «política de classe», é aquela que permanece ancorada na classe trabalhadora e emergindo dela; foi assim que a esquerda política se constituiu e evoluiu ao longo de século e meio.

O nacionalismo de esquerda esconde-se atrás da defesa da «soberania», como se as nações ou os povos fossem os protagonistas da arena política internacional, como se essa tal soberania não fosse – somente – o reconhecimento pela burguesia dos outros países, do direito exclusivo da burguesia de determinado país em explorar os «recursos humanos e naturais» desse país, a seu bel-prazer.

A «esquerda» estatista e baseada em estruturas nacionais, apenas evoca, como ritual, um «internacionalismo» vazio, uma ideia do século XIX. Ideia totalmente esvaziada, pois nesse século era um poderoso factor de mudança juntar a auto-determinação de povos submetidos ao jugo de potências imperiais (a Polónia ao império russo; a Irlanda ao império britânico, entre outros) à luta pela emancipação do proletariado, quer dos países dominantes, quer dos dominados.

Hoje, trata-se antes de fazer viver um novo cosmopolitismo, uma visão não inter-nacional, mas sim trans – nacional.

São transnacionais os monstros que impedem a felicidade humana no século XXI, os grandes conglomerados, as grandes corporações: os que dominam não apenas os mercados, mas toda a economia; não apenas extraem lucros fabulosos, com condicionam os governos dos países (os mais poderosos incluídos) a governar de acordo com seus interesses.

Mas a crise presente veio demonstrar para além de qualquer dúvida, que não há salvação para o género humano, dentro do capitalismo. Coisa que já era conhecida desde há muito, mas que sempre foi desaprendida, cultivando-se o mito de uma infinita potência e adaptabilidade do sistema capitalista.

Face a este estado de coisas, veremos uma série de políticos profissionais a clamarem contra o capitalismo, como um bom estribilho eleitoral, como se vê já em França e noutros pontos da EU.

Em Portugal, também, em breve veremos um discurso «anti-capitalista» sério, cordato, racional, dizendo – em resumo – que é preciso mudar este sistema, mas mudar através do voto, para que não seja através de uma revolução, com o seu cortejo de barbaridades, de banho de sangue, etc.

Em suma, vemos já a entrada em cena dos reformistas eleitorais que pretendem de novo iludir o eleitorado, o povo trabalhador e sacrificado a cada crise, dando-lhe a ilusão de que a mudança está nas mãos deles mas através do voto e argumentando com Obama, como se este fosse mudar algo a sério, na estrutura do poder dos EUA.

«Mudar sim, de maneira ordeira e progressiva, pelo voto apenas e somente», dizem os lobos ao rebanho de cordeiros.

O truque consiste sempre em dar às campanhas o tom, o «estado de espírito» por que as pessoas anseiam, dando-lhes a entender que estão a «captar» a sua onda, prometendo realizar os anseios da multidão.

As pessoas, em vez de reflectirem no que significa realmente «empowerment» (que eu traduzo por auto-empossamento) algo que obviamente não pode ser concedido por ninguém, projectam o seu sonho e fazem um voto piedoso, no político que melhor lhes soube vender «o céu na terra».

É um truque velho da «democracia» por delegação; nuns países, este jogo é mais descarado que noutros. Em Portugal, este jogo é tido como «legítimo», não penalizador portanto da popularidade de políticos que jogam na cartada do populismo para se fazerem eleger e rasgam as suas promessas na noite das eleições, se obtiverem «maioria absoluta».

Esta maioria dá-lhes um poder muito grande, praticamente absoluto, eles sabem-no e fazem uso descarado dele. Foi assim com Cavaco Silva quando primeiro-ministro, igualmente com José Sócrates. Numa democracia liberal mais madura, tal não ocorreria, haveria contra-pesos, que impediriam uma parasitagem total do aparelho de estado pelos militantes e protegidos do partido no poder. Mas, Portugal é um país neo-colonial.

Apenas num país neo-colonial temos um primeiro-ministro indiciado pela Scotland Yard, mas que continua, sem se demitir, sem sair do poder, apenas porque o detém e domina a máquina partidária e estatal com mão de ferro.

Ele mantém assim um partido clientelar sob a sua batuta absolutista, impedindo que surja alternativa do interior. Claro que não está a servir os interesses do sistema político português em geral, nem do seu partido em particular.

Mas, numa neo-colónia, não surpreende que o demagogo de ontem se transforme paulatina ou repentinamente num ditador.


É típico dos poderes neo-coloniais serem extremamente severos em relação ao «bom nome» e «honra» dos governantes, ameaçando e reprimindo todos aqueles que ponham em dúvida a probidade e altruísmo dos governantes.

Na realidade, os donos dessas marionetes que são os governantes dessas «repúblicas bananeiras» não se importam muito; desde que as marionetes façam o seu trabalho, ou seja, reprimam o necessário para que o país neo-colonizado assim continue; no tempo dos imperadores romanos chamavam-se sátrapas, aos tais reis vassalos.

O objecto, a razão de ser profunda de uma dominação neo-colonial, do ponto de vista da potência dominante é a hegemonia sobre os recursos económicos: assim temos Portugal a saque por vários lados:

– São as pescas e o zona económica exclusiva completamente entregues às frotas dos países pesqueiros mais fortes da EU, nomeadamente de Espanha;

– é o grande capital bancário com sede em vários países (Espanha, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Suiça) a tomar participação em muitos sectores da banca portuguesa;

– o mesmo se passando com o imobiliário, sobretudo nos segmentos de escritórios e dos empreendimentos de luxo.

Tudo o que é de elevada margem de lucro é logo abocanhado por consórcios internacionais, com um ou outro «homem de mão» ou «testa de ferro» português.

Com a agricultura passou-se algo diferente.

Quando ambas as nações ibéricas aderiram à CEE, a Espanha invadiu o mercado português com produtos agrícolas bem mais baratos, mesmo quando de qualidade inferior. Os produtos portugueses não puderam competir. As falências sucederam-se em série, porque o poder político, querendo mostrar-se «bom aluno», incentivou a introdução da «PAC» (política agrícola comum), precipitando a ruína do sector mais estratégico para a sobrevivência de Portugal como entidade política independente.

Não é necessário ser-se um génio de economia para perceber onde isto tudo iria dar: passados vinte anos, estamos na cauda da EU, em relação a imensos aspectos, sendo notório que houve uma regressão de qualidade de vida para pelo menos dois terços da população.

Os portugueses, sobretudo nas zonas rurais, não esperaram mais; recomeçaram a fazer o caminho da emigração, repetindo assim o dos seus pais e avós, que nos anos sessenta tiveram de ir trabalhar para os países ricos da Europa.

Como não «chegasse» a sangria dos campos, também a fuga dos cérebros se tem vindo a dar em ritmo acelerado. São para cima de 50 mil, os jovens com graus de licenciatura ou mais elevado (num país com muito poucos licenciados) que se encontram no estrangeiro: muitos não irão voltar (pelo menos em termos profissionais).

Ao país depauperado, sem boa parte da sua juventude, dos seus mais brilhantes cientistas,

sobra apenas um «futuro», se assim se pode chamar: servir de estância de férias para as classes trabalhadoras dos países mais ricos.

Á primeira vista, não deveríamos ficar tristes com isso. Afinal, era riqueza que iria para a nossa economia depauperada. Porém, as coisas não são tão simples:

Tal actividade ainda é a mais geradora de desequilíbrios demográficos, a população toda concentrada no litoral, as aldeias e vilas do interior a morrerem lentamente. Causa impactos ambientais muito negativos, basta ver as estufas e rega intensiva no Algarve, as construções em locais frágeis da nossa costa, como a Costa Alentejana. Quem não conhece campos golfe? São um atentado ecológico, desde os herbicidas e pesticidas que são usados em grandes quantidades, à sua implantação em zonas muitas vezes classificadas como pertencendo à Reserva Agrícola Nacional e desanexadas, para não falar das quantidades absurdas de água de rega que é desviada para esses «resorts» de luxo!

O interior, humanamente desertificado, sem explorações agrícolas, vai sendo ocupado pelo «deserto verde», o eucaliptal que tudo invade, não havendo sequer esperança que se salvaguarde o ecossistema do «montado de sobro», um dos mais produtivos e variados ecossistemas mediterrânicos, ecossistema que seria a base natural de uma agricultura e indústria sustentáveis.

Este país depauperado é também explorado no labor das suas gentes; com o rebentar da crise internacional descobrimos que o tecido industrial é largamente composto por «maquiladoras», empresas que apenas subsistem por obra e graça dos seus patrões de outros países, com um capataz local.

Estas maquiladoras fecham logo que o seu produto deixa de ser necessário à indústria automóvel ou de semi-condutores ou outra. Descobrimos que uma enorme parte das nossas exportações industriais podem considerar-se totalmente dependentes do funcionamento de outros centros industriais onde são juntas as peças que são produzidas em vários pontos do globo.

O «desenvolvimento» do período dos passados 25 anos consistiu em vender a mão-de-obra barata portuguesa aos patrões das transnacionais, garantindo um óptimo e seguro retorno dos seus investimentos.

O governo jamais se atreveu a obrigá-los, quando decidiram deslocalizar, a restituir as somas indevidamente arrecadadas como ajudas à implantação, permanência, ao emprego, etc. Desde as isenções de impostos industriais, das contribuições patronais para a segurança social, até ao fechar de olhos perante esquemas de facturação para escapar ao fisco, as empresas estrangeiras obtiveram tudo, aqui.

Portugal é – de facto – mais um país neo-colonial, sugado até ao tutano pelos grandes capitalistas internacionais. O facto de ser uma antiga nação europeia, de já ter sido uma potência colonial, pouco importa na nova ordem mundial. O capitalismo não se importa com etnias, religiões, tradições históricas, ou com outra coisa, excepto o lucro.

Espero que se comece a compreender, depois do que escrevi atrás, o aparente mistério de como um país, com tão boas condições naturais e tanta sorte na História, ao fim e ao cabo, definha em «apagada e vil tristeza».

Manuel Baptista

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  1. Manuel Baptista
    10 Maio, 2009 às 9:48 pm

    Obrigado, companheiros/as, por publicarem este texto. Eu afixei uma versão mais curta em
    http://www.luta-social.org/2009/05/portugal-pais-neo-colonial.html

    De qualquer maneira, este texto deverá ser o ponto de partida para um debate.
    Devemos fazer a análise cuidadosa do que está em jogo, para sabermos onde, como, quando e por que meios agir.
    Há um enorme défice de debate democrático; os jornais têm uma auto-censura enorme. O jornalismo português é considerado «plural» apenas pelo facto de ter opinadores de yodas as cores e simpatias partidárias, mas apenas no sentido de partidos parlamentares. A opinião de pessoas não alinhadas com a partidocracia está fora de questão.
    Assim, o problema que se coloca é como fazermos com que um debate frutifique, que saia do círculo de pessoas amigas que se conhecem bastante bem, para alcançar outros interlocutores, pessoas que – de uma forma ou de outra – desejam participar.
    Penso que se deveria estruturar uma campanha contra a UE e contra a NATO, mas indo a coisas concretas e positivas, devia ser feita de modo consequente, com sentido estratégico.

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