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Autoeuropa: os trabalhadores e o emprego antes de tudo

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As negociações na Autoeuropa estão hoje mais difíceis que no passado. A crise na indústria automóvel está à vista de todos. Vendem-se menos unidades. Haverá muitas razões que podem explicar isso, mas de todas, o abaixamento do poder de compra, muito sentido após a adesão à moeda única, explicam, em Portugal, a fatia maior na diminuição das vendas . Hoje a troca de carro é mais tardia e os jovens mostram grandes dificuldades em ter o seu primeiro carro (como a sua primeira casa, o primeiro emprego, etc. ).

No passado recente os acordos na Autoeuropa mereceram elogios e reparos: a) elogios pela actuação competentes dos dirigentes da CT nas negociações, sabendo conciliar firmeza na defesa dos direitos dos trabalhadores e elasticidade negocial na procura de soluções, assegurando sempre que a um recuo se seguiria um avanço em “dobro”, sempre que as condições económica-financeiras da empresa desse mostras de melhoria, como veio algumas vezes a acontecer.  B) reparos, ou melhor dito ataque soezes dos que vêem o sindicalismo apenas como um instrumento de combate político-partidário e não como meio de defesa dos superiores interesses dos trabalhadores e dos seus direitos (como bem perceberam os trabalhadores que em plenários aprovaram sempre e por larguíssima maioria os acordos celebrados). Viu-se o que deram estas intransigências na OPEL da Azambuja: deslocalização da empresa e trabalhadores para o desemprego. Por fim, ainda, alguns empresários sem escrúpulos que deturpando o acordo apenas se referiam à flexibilidade negocial, escondendo as garantias e os direitos subsidiários conseguidos.

Não, por acaso, a Autoeuropa tem-se aguentado, não tem havido despedimentos, os trabalhadores continuam a ganhar acima da tabela, os trabalhadores não têm perdido direitos mas apenas trocado ou suspenso.  Agora os dirigentes e os trabalhadores, na renegociação de um novo acordo, deparam-se com uma intransigência inesperada e forte da administração, parecendo difícil encontrar soluções de consenso, em que as partes possam ceder, sem colocar em causa a perda de empregos, a deslocalização da fábrica ou a perda de direitos de forma definitiva, isto apesar dos apoios do Estado concedidos à indústria automóvel.

A CT de trabalhadores enfrenta um novo teste. E qualquer que seja a decisão será, agora redobradamente, motivo de criticas. Um acordo com a empresa, nas condições pretendidas pela administração será entendido como uma cedência, uma capitulação. Uma atitude de total irredutibilidade, poderá colocar em causa alguns postos de trabalho, ou mesmo a deslocação da produção para a Alemanha e o despedimento colectivo. Em última análise é toda uma economia de uma região que está em causa. Dezenas de empresas que sobrevivem à custa da Autoeuropa, milhares de trabalhadores a correrem riscos de desemprego.

Há quem já esteja de dentes afiados. A célula do PCP está à espera de lançar o ataque seja qual seja a decisão e mesmo que esta tenha o apoio dos trabalhadores. Aos dirigentes, agora como no passado, exige-se inteligência, criatividade. Ser firme mas pesar todas as consequências, não arrastando os trabalhadores para becos sem saída, irremediáveis. Não queria estar na pele dos dirigentes da Comissão de Trabalhadores. Em última análise caberá aos trabalhadores decidirem. Não desistindo de lutar mas cuidando de não esticar a corda até rebentar.

Como já tive de dizer num anterior post: a crise veio mostrar como o capitalismo é ganancioso e selvagem. Em tempo de vacas gordas enchem-se à vontade e à larga não partilhando com os trabalhadores a criação da riqueza. Nas dificuldades os trabalhadores são tratados como cães vadios. Aos primeiros sinais, fazem verter sobre os trabalhadores a crise, despedem, fecham as empresas. Não aceitam a diminuição dos lucros. Uns tempos de prejuízos depois de anos e anos de intensos lucros. A diminuição dos tempos de trabalho, os lay-off’s, são ganhar tempo, para esconder o despedimento colectivo que vem logo a seguir. Os trabalhadores que sabem o que significa o drama do desemprego, não se esquivariam nunca a ceder temporariamente direitos, salários, se a crise existir de facto e perfeitamente demonstrada.

O problema é o capitalismo predador.

# Fernando

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Categorias:Fernando
  1. 21 Maio, 2009 às 9:27 am

    Camarada Fernando

    O teu excelente post vem frisar e alertar alguns problemas (gravíssimos por sinal) que se deparam hoje aos assalariados vs patronato não só da Auto-Europa mas também a todos nós.

    Quanto à Auto-Europa queria-te recordar que a mesma para ser implantada em Portugal teve por parte do estado larguíssimas benesses (leia-se apoios) e que apoios, coisa que às suas congéneres nacionais o mesmo estado não dá.

    Começava pelo “preço” do terreno onde a mesma está implantada, o mesmo pertencia (pertence????) a um dos maiores especuladores imobiliários do país (Xavier de Lima) “dono” de quase metade do Distrito de Setúbal (Norte), o restante (sul) pertence ao Belmiro, Amorim, BES e Árabes, o terreno foi “comprado” pelo estado e “dado” à Auto-Europa” ou “vendido” a preço da uva mijona, (fala-se em dois tostões o m2) (qualquer empresário teso também comprava), depois teve durante os primeiros dez anos de laboração (os tais que foram só arrecadar dinheiro aos magotes) isenções e/ou benesses várias no pagamento de impostos (qualquer empresário teso também queria), a fábrica está montada de tal maneira que num curto prazo (os mais optimistas estimam 90 dias) os alemães desmontam-na e colocam-na em qualquer parte do mundo. Portanto durante 10/11/12 anos foi só lucro e que lucro, investimento de monta ZERO, pois a mudança de linhas de produção não se pode considerar investimento pois é só mudar uma ou outra maquineta, dar uma formação mínima aos operários e já está.

    Estou convencido (ainda ninguém me provou o contrário) se estas mesmas regalias fossem dadas a portugueses sejam particulares ou colectivos e/ou cooperativas, os resultados seriam melhores. Também sabemos tratar de nós, basta para tal que nos dêem condições.

    Todos sabemos que as empresas estrangeiras vêm para cá na procura da mão-de-obra barata e do lucro fácil, quando estão fartos (digo carregados de dinheiro) batem com a porta e vão-se embora, sempre assim foi e sempre assim será.

    Digo-te, a Auto-Europa nunca vai encerrar (por agora), sabes por quê? Em pouco tempo o distrito de Setúbal transformava-se num gigantesco Bairro da Bela Vista que se alargaria como fogo em feno seco ao restante país, e isso eles não querem.

    Este (ou outro) governo juntamente com o capitalismo europeu encontrará solução, mas, caro camarada a coisa por aqui está preta e quase a rebentar, só falta um sinal, um simples sinal……

    Abraço

  2. libertario08
    22 Maio, 2009 às 11:59 pm

    Fernando,

    Apoio o teu excelente texto e acrescento: O problema é o capitalismo predador… e quem o apoiar e segurar.

    (Ainda não me respondeste!)

    Um abraço

  3. libertario08
    23 Maio, 2009 às 12:00 am

    era a Kaótica, claro!

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