Início > anarquismo > PARA A SOCIEDADE LIBERTÁRIA (I)

PARA A SOCIEDADE LIBERTÁRIA (I)

OS ANARQUISTAS SÃO INDIVIDUALISTAS OU COLECTIVISTAS?

Para alguns “profetas” das verdades absolutas os anarquistas são individualistas para outros colectivistas, afinal ambas estão erradas. Não é de surpreender, uma vez que os anarquistas não são nem uma nem outra. Gostem ou não, os individualistas não anarquistas e os colectivistas não anarquistas são as duas  faces da mesma moeda capitalista. Isto demonstra-se considerando o capitalismo moderno, onde as tendências “individualista” e “colectivista” continuamente se influem mutuamente, muitas vezes com o pêndulo da estrutura política e económica oscilando de um extremo a outro. O colectivismo e o individualismo capitalista são aspectos parciais da existência humana, e da mesma forma que todas as manifestações de desequilíbrio, estão profundamente degeneradas.

Para os anarquistas, a ideia de que os indivíduos deveriam sacrificar-se “pelo grupo” ou “pelo bem comum” não tem sentido. Os grupos são formados por indivíduos e se as pessoas pensam somente no bem estar do grupo, esse grupo será uma casca sem vida. Somente a dinâmica do intercambio humano dentro de um grupo é o que lhe dá vida. Os “grupos” não podem pensar, apenas porque os indivíduos pensam. Ironicamente, este facto leva os “colectivistas” autoritários à classe de “individualismo” mais peculiar, o “culto da personalidade” e a adoração do líder. É de se esperar, uma vez que tal colectivismo amontoa os indivíduos em grupos abstractos, lhes nega sua individualidade e acaba precisando que alguém com suficiente individualidade tome decisões; os problemas se “resolvem” com as ideias do líder. O Stalinismo e o Nazismo são excelentes exemplos deste fenómeno.

Estas considerações não significam que o “individualismo” encontre apoio entre os anarquistas. Como assinalou Emma Goldman, o individualismo exacerbado  não é mais do que uma tentativa dissimulada de reprimir e de derrotar o individuo e a sua individualidade, invariavelmente resulta no incremento das distinções de classe, supondo todo o individualismo para os amos, enquanto que o povo é arregimentado em uma casta de escravos a serviço de um punhado de super homens egoístas”

Enquanto os grupos não pensarem, os indivíduos não poderão viver nem discutir por si sós. Todavia, devido a sua perspectiva desequilibrada, os “individualistas” acabam apoiando algumas das instituições mais “colectivistas” que existem, as empresas capitalistas, e alem disso, sempre defendem a necessidade de um estado apesar de suas frequentes acusações contra ele. Estas contradições nascem da dependência do individualismo capitalista de contratos individuais em uma sociedade desigual, ou seja, um individualismo abstracto.

Em contraste, os anarquistas acentuam o individualismo social. O anarquismo “insiste que o centro de gravidade da sociedade é o individuo, que tem que pensar por sim mesmo, actuar livremente, e viver plenamente. Se alguém quer desenvolver-se livre e plenamente, tem que se ver livre da interferência e da opressão dos outros. Isto nada tem a ver com individualismo exacerbado. Tal individualismo depredador é na realidade débil, não robusto. Ao menor perigo à sua segurança, corre em direcção ao estado para buscar refúgio e ajuda pela sua protecção, seu individualismo exacerbado é simplesmente uma das muitas atitudes típicas da classe dominante com vistas à extorsão política e a usurpação dos trabalhadores”.

O anarquismo rejeita o individualismo abstracto do capitalismo, com suas ideias “absolutas” de liberdade do individuo violentado por outros. Esta teoria ignora o contexto social que é o ambiente onde a liberdade existe e cresce.

Uma sociedade baseada em “contratos individuais” geralmente resulta da desigualdade de poder entre os indivíduos contratantes e gera a necessidade de uma autoridade baseada em leis acima deles e na coerção organizada para forçar o cumprimento dos contratos entre eles. Vê-se claramente esta consequência no capitalismo e, mais notável ainda, na teoria do “contrato social” da qual se desenvolveu o estado. Nesta teoria se assume que os indivíduos são “livres” quando estão isolados uns dos outros, estando, como dizem, originalmente em um “estado natural”. Uma vez agrupados em sociedade, se supõe que criaram um “contrato” e um estado para administrá-lo. Contudo, além de ser uma fantasia sem nenhuma base na realidade (os seres humanos sempre foram animais sociais) esta “teoria” não é mais que uma justificação dos extensos poderes do estado sobre a sociedade; o que por sua vez justifica o sistema capitalista, que requer um estado forte. Também copia os resultados das relações económicas capitalistas sobre as que se constrói esta teoria. Dentro do capitalismo, os indivíduos se contratam “livremente”, mas na prática o patrão manda sobre o trabalhador enquanto dura o contrato.

Na prática, o individualismo e o colectivismo levam à negação da liberdade individual, à autonomia e à dinâmica de grupos. Ademais, um supõe o outro, o colectivismo leva-nos a uma forma particular de individualismo e vice-versa.

O colectivismo, com sua supressão implícita do individuo, afinal de contas acaba por empobrecer a comunidade, uma vez que os grupos apenas tem vida através dos indivíduos que os formam. O individualismo, com sua supressão explícita da comunidade (e as pessoas com que alguém vive) no final de contas empobrece o individuo pois os indivíduos não existem aparte da sociedade, passa a existir dentro dela. Alem de tudo o individualismo acaba por restringir a uns “poucos eleitos” as intuições e habilidades dos indivíduos que formam o resto da sociedade, agindo desta maneira constituem-se numa fonte de auto-negação. Este é o erro (e a contradição) maior do individualismo, a impossibilidade do individuo chegar a alcançar um pleno desenvolvimento em condições de opressão das massas pelas “aristocracias”. Seu desenvolvimento permaneceria desequilibrado.

# Ferroadas

Anúncios
Categorias:anarquismo Etiquetas:
  1. mescalero
    27 Agosto, 2009 às 3:05 pm

    Terei que ler este post com mais atenção quando não estiver apenas de passagem por um computador com net. Se calhar devias ter esperado por Setembro para o publicar, caro Ferroadas. Em Agosto está visto que não se passa nada. Seja como for o tema é muito interessante e merece ser desenvolvido.

    abç

  2. Manuel Baptista
    6 Setembro, 2009 às 6:38 pm

    O Bakunine é colectivista e os comunistas libertários, desde os finais do século XIX fazem a crítica do colectivismo Bakuniniano, considerando que não vai até às últimas consequências do pensamento libertário sobre a propriedade colectiva.
    O colectivismo que o Amigo refere é o dos «comunistas» que não são comunistas nem colectivistas, mas sim autoritários, opressores ou candidatos a isso!
    Portanto, este artigo infelizmente ignora toda a CORRENTE PRINCIPAL DO ANARQUISMO; O ANARQUISMO SOCIAL.

  3. mescalero
    7 Setembro, 2009 às 11:42 am

    Na minha leitura, o artigo foca precisamente o ponto em que o colectivismo passa de libertário a autoritário (tal como com o individualismo).

    Assim, não só não ignora a tradição do anarquismo social, como faz a crítica a esse “anarquismo social” que pretende ascender a corrente principal e tantas vezes única da vasta tradição libertária.

    Acho é que o assunto tem muito mais que se lhe diga. A mim interessava-me compreender como ultrapassar esta dualidade que cada vez mais me parece uma descrição desajustada.

  4. Manuel Baptista
    7 Setembro, 2009 às 2:01 pm

    Mescalero,
    Para te provar que este artigo apenas reflecte uma confusão de conceitos, analisa a frase:
    «Na prática, o individualismo e o colectivismo levam à negação da liberdade individual, à autonomia e à dinâmica de grupos. Ademais, um supõe o outro, o colectivismo leva-nos a uma forma particular de individualismo e vice-versa»

    Este discurso é o do mais puro liberalismo capitalista (mesmo sem o saber). Não tem nada de anarquista, pois o ponto de partida do anarquismo é outro, completamente diferente.
    Acho que já chega as pessoas se intitularem isto ou aquilo, antes mesmo de terem uma noção clara daquilo que certos conceitos recobrem.
    O colectivismo é relativo ao poder: não aceitando chefes, aceitando um poder colectivo, ou seja, assembleias auto-instituídas. Por extensão, a propriedade tem de ser colectiva e colectivamente gerida, não por algum que se arvora em representante disto ou daquilo.

    O individualismo representa a negação do colectivo, na medida em que não aceita submeter-se a nenhuma decisão colectiva, sempre que esta esteja em contradição com o seu interesse particular ou a suas visão do que seja o seu interesse particular. Assim, o individualista não deve aderir a um colectivo, pois será sempre alguém «de pé atrás», pronto a sair à primeira situação que não seja do seu inteiro agrado.
    O individualista é alguém que pensa e age como se houvesse uma oposição irredutível entre a sua liberdade individual e a tomada de decisão colectiva, como se o colectivo fosse coartar, cercear e reprimir sua auto-determinação.
    Não é esta a corrente pricipal do anarquismo, basta ver os grandes nomes e tradições do mesmo, para ver que o anarquismo é social, colectivista e comunista, desde muito cedo.
    Saúde e Anarquia,
    Manuel Baptista

  5. mescalero
    8 Setembro, 2009 às 5:42 pm

    Acho que essa frase percebe-se se for lida à luz da posição que todo o post procura transmitir, ou seja, o individualismo e o colectivismo ou são libertários ou “levam à negação da liberdade individual, à autonomia e à dinâmica de grupos”. E que um e outro, na prática, não vivem sem a sua contra-parte.

    E colectivismo lido aqui como social (de socialismo). Pelo menos é como eu o leio.

    Tradicionalmente este debate tem sido feito a dois níveis distintos, o filosófico e o “político”/histórico, e é preciso ver que aqui estamos no primeiro desses níveis. Não é um debate entre correntes anarquistas, nem eu me metia a discutir isto se fosse o caso. Acho que um debate deste tipo pode perfeitamente acontecer entre anarquistas da corrente socialista, sobre o peso que cada um destes conceitos deve ter nas suas concepções teóricas e nas suas práticas. A questão é que aqui a conclusão não coincide com a dos anarquistas sociais e daí a tua reacção.

    Eu até concordaria contigo se a questão fosse simplesmente diferenciar o colectivismo libertário do outro. As críticas ao colectivismo ficariam sem efeito e podia-se partir para a desconstrução do individualismo como fazes neste último comentário. Para mim não é tão simples assim, porque há questões por resolver nessa ideia de colectivismo do anarquismo social, nomeadamente a crítica que lhe é feita por outros anarquistas de esquerdismo.

    Quanto à tua definição de individualismo, acho que é uma caricatura que tem o seu espelho no tristemente célebre “O socialismo representa a negação do indivíduo”.
    Na verdade, o anarquismo social admite o direito de dissidência, que é basicamente o mesmo princípio em que sustentas a inviabilidade do individualismo.

    Para finalizar, tenho de dizer que enquanto anarquista não reconheço como libertária a atitude de negar a alguém o mui nobre título de anarquista (se fosse de comendador ou presidente da junta ainda vá lá) pelo singelo facto dessa pessoa não ter uma noção clara dos conceitos de “individualismo” e de “colectivismo”.

  1. 1 Setembro, 2009 às 1:24 pm

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: