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POR UMA SOCIEDADE LIBERTÁRIA

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Parte II

Aqueles que estão familiarizados com as tradições radicais reconhecerão um foco anarco-comunista neste esboço de comunidade, um foco anarco-sindicalista no controle dos trabalhadores, e um foco anarco-feminista pela abolição da distinção entre esferas públicas e privadas da vida social. Acredito que sem a presença de cada um desses elementos os outros não poderão ser alcançados. Se apenas os trabalhadores controlassem tudo sozinhos sem deixar nenhum espaço de tomada de decisão à comunidade como um todo estaríamos a deturpar toda a razão revolucionária. Impedir que a comunidade participe também no controle dos meios de produção é algo sem sentido, vazio. O fracasso na democratização e na socialização das Casas, o fracasso em incluí-las (e sua consequentemente reprodução) como parte explícita e integrante dos arranjos sociais, deixaria intacta a divisão por género, ao mesmo tempo em que perpetuaria a dicotomia público/privado.

 Nas recentes décadas surgiram novas cidades, praticamente do nada, principalmente pelo “fomento” de empreendimentos de intercambio. Também, muitas casas utópicas completamente novas foram estabelecidas ao longo do século XIX nos Estados Unidos, e talvez noutros lugares. Seguramente será possível, tendo os recursos, construir novas casas a partir do nada no futuro, pelo menos numa escala limitada. Entretanto, esta será certamente mais uma excepção do que uma regra, especialmente no começo desta revolução. Na maioria das vezes, construir a partir do nada estará fora de questão durante os primeiros 50-75 anos.

 Portanto, a tarefa actual que enfrentamos é transformar estruturas existentes (edifícios, fábricas) e relações sociais naquilo que desejamos. Precisamos tentar imaginar como o nosso bairro modelo ficaria depois de ter sido convertido a partir de um bairro urbano típico (em vez de construí-lo do nada).

Vejamos primeiro se podemos converter a fábrica existente em algo mais útil ao viver democrático, cooperativo, sem esquecer que esta é a parte mais fácil; difícil mesmo é transformar as relações sociais (por exemplo, propriedade, família, trabalho, e as relações que exercem entre si). Lidarei com isto mais abaixo discutindo como chegar lá.

 Fábricas e lojas podem ser facilmente adaptadas, caso não possam ser usadas como estão (depois de ocupadas e serem auto-gestionárias). Algumas áreas terão que ser dedicadas às reuniões dos Círculos Operários e assembleias de projectos.

 Mais difícil será transformar uma rua cheia de residências individuais numa casa. Provavelmente algumas improvisações podem ser feitas: constroem-se passagens e túneis entre os edifícios; certos quartos para seminários, cuidados médicos, bloquear certas ruas para ordenar de forma diferente, ampliação de uma ou duas cozinhas numa unidade comunal; rearranjo de quartos, etc..

Também será difícil de achar um espaço de reunião para a Assembleia de Casas. Há opções porém. Uma igreja, um ginásio ou poli-desportivo seria uma forma de se encontrar a solução. Mas também, armazéns, supermercados e lojas. A maioria destes espaços não pode segurar 2000 pessoas porém. Pode ser necessário começar com Assembleias de Casas menores – digamos, cinco Casas de 200 pessoas cada – formando uma Assembleia de Casas de 1000 pessoas, em vez de dez Casas formando uma Assembleia de Casas de 2000 pessoas.

Mais tarde, quando o fluxo de riqueza do bairro para a classe dominante for interrompido, quando a riqueza da classe dominante for re-apropriada pelo povo, os bairros irão querer, indubitavelmente e terão recursos para fazer isso, construir espaços mais apropriados para a Assembleia de Casas, especialmente projectados para isso, como também novos complexos comunitários. Mas no princípio teremos que sobreviver com o que já existe. Todas as riquezas produzidas por séculos a fio estão embutidas no desenho arquitectónico actual, um desenho que reflecte os valores, prioridades e relações sociais capitalistas. Levará muito tempo até que possamos demolir e reconstruir todo esse mundo físico, de forma a expressar as necessidades de pessoas livres. Para tal haja união.

Uma vez reconstruído, a nova civilização será caracterizada pelos seus espaços reservados à realização de assembleias. Da mesma maneira que mundos anteriores foram caracterizados pelas pirâmides do Egipto antigo, pelos templos e teatros da Grécia antiga, pelos castelos e catedrais da Europa medieval e pelos bancos e arranha-céus do capitalismo moderno, assim, o novo mundo social de pessoas cooperativamente autónomas será conhecido pelos seus espaços de reunião. Tais espaços em sua maioria terão distintas características arquitectónicas. Indubitavelmente serão de todas as formas e tamanhos. Além das grandes câmaras de assembleia gerais para os bairros (Assembleias de Casas), serão necessários alguns pequenos espaços que se adequam ao desenvolvimento dos projectos necessários a cada Casa e aos encontros dos Círculo Operário, como também espaços maiores para projectos ampliados e assembleias da Casas ampliadas. Após discussão e aprovação, algumas pessoas projectarão, construirão e equiparão bonitos  e excelentes espaços, onde de uma forma solidária todos se sentirão Homens Livres.

…continua

#Ferroadas

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  1. mescalero
    24 Outubro, 2009 às 4:03 pm

    Existe uma quantidade absurda de casas desabitadas, ou porque estão devolutas ou porque são segundas residências, ou ainda porque estão à venda e assim ficam durante imenso tempo. É outra coisa que falta em Portugal, um movimento de ocupação como há noutros países europeus. Aqui concordo contigo que não há necessidade de construir novo.

    Não percebi a parte de “transformar uma rua cheia de residências individuais numa casa.” Estás a dizer que não concordas com a habitação individual?

    Outra coisa que acho que não faz muito sentido são as reuniões com 2000 pessoas. É demasiada gente. Isso só tem interesse se for para as pessoas irem assistir a algo passivamente mas a ideia da assembleia libertária tem de ser a da participação.

    abç e continuação de boas reflexões

  2. 26 Outubro, 2009 às 12:30 pm

    Camarada Mescalero

    Sim, tens alguma razão quando apontas “transformar uma rua cheia de residências individuais numa casa”, talvez esteja mal explicito, a minha intenção não foi nem é “acabar” com a residência individual, a ideia é colocar ao serviço de todos um conjunto de residências, como dizes devolutas e/ou segunda ou terceira residência de pessoas que nem necessitam das mesmas e coloca-las ao serviço da comunidade local transformando-as em centros de dia, jardins de infância, cozinhas e refeitórios comunais, posto médico de primeiros socorros, etc..

    Em relação ao conceito de reunião de 2000 pessoas, se verificares, a ideia é, desde que exista espaço físico suficiente albergar o maior número possível de residentes da respectiva comunidade, ou seja nos grandes centros urbanos é possível, nas comunidades mais pequenas esse número seria obviamente menor. Também se poderia fazer reuniões de “casas” com 100/200 pessoas, estas “delegavam” em alguém, para posteriormente nas assembleias estes delegados apresentarem as decisões dos anteriores e conjuntamente com os restantes delegados de outras comunidades decidirem. Quanto a mim e na minha concepção de comunidade delegar em alguém não aceito (quanto maior for o número de pessoas envolvidas, melhor), a democracia directa é assim mesmo, todos têm a sua palavra sem excepções, todos participam, todos são responsáveis.

    No Brasil existem várias comunidades que subsistem assim ou parecido, onde há comunidades de “casas” de “rua” e até de aldeia, e onde todos se ajudam mutuamente (mutualismo, auto-gestão) e em alguns casos são (quase) auto-suficientes.

    Abraço

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