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18 DE JANEIRO DE 1934

18 Janeiro, 2010 1 comentário

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Não é de mais ainda aconselhar a leitura da obra de Fátima Patriarca “Sindicatos contra Salazar. A Revolta do 18 de Janeiro de 1934” (Imprensa de CiênciasSociais, 2000) de que deixamos aqui parte da resenha que mereceu na Análise Social por Henrique N. Rodrigues: 

(…) 1.º Não tem qualquer sentido reconduzir o 18 de Janeiro à Marinha Grande. Fica mais do que demonstrado que a versão oficial (interesseira, por natureza) e a versão do Partido Comunista (também obviamente interesseira) — ao prestarem destaque quase único à Marinha Grande, aos vidreiros e à liderança comunista não logram comprovativo na realidade dos factos.
2.º Ganha sentido, sim, «recolocar» o 18 de Janeiro na sua dimensão histórica exacta: um movimento operário insurreccional, que visava a reconquista das liberdades sindicais, a par do derrube do regime do Estado Novo.
3.º Neste contexto, a Marinha Grande é um episódio «mediático» (assim o diríamos na linguagem corrente), porque envolve uma ocupação da vila pelos revoltosos — ainda que de duração muito curta —, o assalto aos correios e a rendição da GNR. Sobretudo esta é, de facto,paradigmática. Mas não há greve, não houve «soviete» nem içar de bandeira vermelha nos Paços do Concelho.
4.º O episódio da Marinha Grande é, por outro lado, reposto quanto à autoria do seu comando: se é verdade que a CIS e o PC têm peso significativo na direcção do Sindicato Nacional dos Vidreiros, não é menos verdade que se comprova a participação empenhada da CGT ede trabalhadores de outras correntes político-sindicais.
5.º Fica igualmente comprovado que o movimento operário insurreccional, de que expressões concretas vão ter lugar para além da Marinha Grande, se gera e desenvolve com oconcurso das duas principais correntes sindicais — a anarquista e a comunista — e com o envolvimento dos sindicalistas socialistas ( a Federação das Associações Operárias) e da corrente sindicalautónoma (COSA — Comité das Organizações Sindicais Autónomas).
6.º Fátima Patriarca descreve bem os entendimentos e desentendimentos surgidos entre estas várias correntes e clarifica melhor o seu peso respectivo. É indubitável que a CGT e a corrente sindical anarquista tiveram, neste processo, uma influência marcante. Isto não elimina o papel dos comunistas — que não pode ser esquecido ou menorizado —, mas repõe a verdade essencial: e essa é a do contributo das várias tendências sindicais (anarquista, comunista, socialista e a dos autónomos), segundo os factos que conseguiu demonstrar.Não me parece que seja muito importante, hoje, «contar espingardas», ou seja, procurar apurar se os anarquistas foram mais decisivos do que os comunistas, ou se os socialistas ou os autónomos não tiveram significado relevante. Houve uma convergência de esforços, emergiu uma implicação de todos — mesmo que não tenha ocorrido uma unidade estratégica, organizativa, táctica, como parece evidente pela comprovação dos desencontros, pelas falhas de articulação, pelas recriminações que, «antes e depois», choveram de uma banda e de outra, em recíprocas acusações.
7.º Neste contexto, importaria retirar a conclusão de que o «18 de Janeiro» merece ser comemorado, doravante, não apenas na Marinha Grande, como tem sido tradicional, mas também em Silves, em Sines, em Almada, zonas onde a «história que se fez» deixou na tumba as ocorrências — essas, sim, muito significativas — do que ali se passou; mas onde a «históriaque hoje rompe novos véus» já permite, sem margem para dúvidas, reconhecer que o «18 de Janeiro» é ali que conquista contornos historicamente mais iluminantes. Em suma, Silves, Sines, Almada, precisam de ser «transladadas» da campa rasa em que as colocaram para o «panteão» do verdadeiro «18 de Janeiro».

Texto retirado DAQUI

Ferroadas

 

ATENTADO A SALAZAR

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Emídio Santana militou nas Juventudes Sindicalistas e foi membro do Sindicato Nacional dos Metalúrgicos, filiado na antiga Confederação Geral do Trabalho (CGT) portuguesa.
No seguimento do golpe militar fascista de 28 de Maio de 1926, desenvolveu uma actividade de resistência contra a ditadura e actividade sindical clandestina.
Em 1936, representou a CGT portuguesa no congresso da Confederação Geral do Trabalho de Espanha.
Em 4 de Julho de 1937 foi um dos autores do atentado a Salazar quando este se deslocava à capela particular do seu amigo Josué Trocado, na Avenida Barbosa du Bocage, em Lisboa, para assistir à missa. Na sequência do atentado, Emídio Santana é procurado pela PIDE e foge para o Reino Unido, onde a polícia inglesa o prende e envia para Portugal onde é condenado a 16 anos de prisão.
A partir do fim da ditadura1974, Emídio Santana retoma a vida militante activa, nomeadamente como director do jornal A Batalha.
Em 1985, Emídio Santana escreveu Memórias de um militante anarcossindicalista, livro onde recorda momentos importantes da sua vida de militância política
Emídio Santana nasceu em a Lisboa, 4 de Julho de 1906, faleceu também em Lisboa, a 16 de Outubro de 1988 foi um dos mais importantes militantes portugueses do anarcossindicalismo. Foi autor de diversos artigos e ensaios sobre o anarcossindicalismo e o mutualismo.
 
# Ferroadas

1º. de Maio: A REVOLTA DE HAYMARKET

29 Abril, 2009 3 comentários

Esta coisa de nós próprios acharmos que um libertário é um tipo descomprometido resulta às vezes numa certa irresponsabilidade. Ora sem responsabilidade individual não há verdadeiro espírito anarca que vingue. Se ignorarmos os nossos compromissos com os  outros camaradas caímos no vazio, baldamo-nos ao colectivo e renunciamos a participar na acção.

Mas os verdadeiros libertários também não andam por aí a dar chibatadas no próprio couro e a dizer toma lá, toma lá que és culpado, arrepende-te. Vai lá, vai, como diz o Ferroadas! Isso é coisa para os cristãos de outras eras e para os Opus Dei, Maçons e outras seitas que não lembram nem ao diabo.

Os verdadeiros libertários tendem para ser assim um bocado a dar para o surrealista: não se arrependem, aprendem com os erros e, se lhes der na real gana voltam a repetir a graça, mas sempre de uma forma original. Agem de acordo com as suas convicções colocando a Liberdade em primeiro lugar nas opções.

Por isso tomo a liberdade de vir aqui colocar este texto fora de horas, completamente desalinhada com a agenda das postagens porque considero útil relembrar este episódio da História decorrente das lutas dos trabalhadores do primeiro 1º. de Maio:

Monumento aos Mártires de Chicago: “Um dia o nosso silêncio será mais forte que as vozes que hoje vocês estrangulam

A REVOLTA DE HAYMARKET

A Revolta de Haymarket aconteceu no dia 4 de maio em 1886 na cidade de Chicago, Illinois, e é considerada uma das origens das comemorações internacionais do “1º de Maio”, o dia do trabalho. Durante uma manifestação pacífica a favor do regime de 8 horas de trabalho, uma bomba estourou junto ao local onde policiais estavam posicionados, matando um imediatamente e ferindo outros 7 que morreram mais tarde. A polícia imediatamente abriu fogo contra os manifestantes, ferindo dezenas e matando onze. Os oito organizadores da manifestação, militantes anarquistas, foram presos e incriminados pelo acontecimento, mesmo na ausência de evidências que os conectassem com o lançamento da bomba. Uma grande campanha foi organizada para salvar os mártires de Chicago. Finalmente, quatro deles foram executados, um cometeu suicídio antes do enforcamento, e os três remanescentes receberam sentenças de prisão que foram revogadas em 1893, quando o governador concluiu que todos os oito acusados eram inocentes.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_de_Haymarket

# Kaótica

O Anarquismo na Revolução

21 Dezembro, 2008 4 comentários

Na realidade, existe uma não pequena confusão sobre o que seja anarquismo. O próprio termo foi usado por vários autores antes de Bakunin, nomeadamente por Proudhon (que não foi o primeiro). Estes estavam conscientes que o termo estava conotado com o conceito de caos, desordem. Porém, eles acreditavam que a negação da «arquia» ou seja do poder, entenda-se do poder político, do poder sobre os outros, se tornaria o sentido predominante. A burguesia, vendo que era uma teoria que acrescentava perigo às «classes perigosas», decidiu estigmatizar o termo como sinónimo da pior desordem social.
Apesar disso, a realidade dos meados do século dezanove fez com que o anarquismo esteve muito mais próximo das classes populares e inspirou muito mais os revolucionários da Iª Internacional, do que o comunismo/socialismo/social-democracia autoritários, protagonizados por Marx e todos os que consideravam que a formação de partidos, capazes de disputar as eleições e obter deputados nos parlamentos, era a única saída para a classe trabalhadora.
A primeira revolução proletária, a Comuna de Paris, mostrou ao próprio Marx que a comuna era a forma orgânica de poder popular, um tipo de governo federalista, onde todas as secções estavam mobilizadas para realizar as tarefas da revolução, sob controlo permanente das assembleias.
Alguns anos mais tarde, em 1905, na primeira grande revolta do proletariado russo, surgiu uma forma de organização, os conselhos de operários ou sovietes, das fábricas em greve, das fábricas ocupadas, inspirada pelos anarquistas russos e que ia beber à comunidade rural tradicional (o Mir) que ainda estava viva neste época e que Kropotkine descreveu. Eram estes os verdadeiros sovietes!
Após a revolução de Fev. de 1917 estes ressurgiram, uns saindo da clandestinidade, outros organizados pela primeira vez, nomeadamente os sovietes de soldados. Foi uma habilidade de Lenine, maquiavélica, de fazer crer que o partido bolchevique estava com a organização dos sovietes, o famoso slogan «todo o poder aos sovietes», que proclamou após o triunfo do golpe de 7 de Novembro de 1917: foi exactamente o princípio do fim dos sovietes como organismos de organização do povo, do proletariado.
O último soviete livre, o de Kronstadt, de onde tinha partido a insurreição da marinha, foi afogado no sangue pouco tempo depois, em 1921 (http://www.struggle.ws/russia/mett/background.html).
Mas os libertários tiveram outras experiências de organização federalista, horizontal, em democracia directa: qualquer revolução ocorrida na Europa, após a revolução russa, recorreu aos conselhos de operários insurrectos: foi assim nas comunas de Berlim e Munique, na república dos Conselhos húngara, biénio rosso italiano, na vaga de greves que acompanhou a vitória do Front Populaire em França e por fim, na revolução espanhola.
Nestes episódios trágicos, os comunistas autoritários frequentemente tiveram um papel de controlar e depois de abafar esses embriões de poder popular. Eles nunca deixaram que os trabalhadores assumissem uma verdadeira auto-gestão. Eles mantiveram o sindicalismo estritamente ligado a um corporativismo, reaccionário e ineficaz. Negaram e combateram o sindicalismo revolucionário, mesmo quando se auto-proclamavam como tal. Estiveram sempre do lado do poder, pois sempre foram idólatras do poder, apenas usando retórica revolucionara.
O sectarismo foi sempre o traço dominante do seu pensamento. Fomentaram as divisões sindicais, tornaram difícil ou impossível a constituição de frentes de resistência ao fascismo em crescimento nos anos 20, apenas mudando de táctica quando já mais de metade dos países da Europa estavam com regimes fascistas (nos anos 36-39 a Alemanha, a Polónia, a Hungria, a Roménia, a Jugoslávia, a Albânia, a Grécia, a Bulgária, a Itália, Portugal eram regimes fascistas ou fascizantes).
Os anarquistas que estavam nos sindicatos foram apelidados de «anarco sindicalistas» pelos leninistas, que pretendiam assim estigmatizar, isolar, apontar do dedo, aqueles que não aceitavam a hegemonia do PC sobre o movimento social e sindical. Os sindicalistas revolucionários autênticos tentaram evitar as rupturas, bateram-se para que houvesse uma frente unida sindical. Porém, os bolcheviques das diversas tendências digladiavam-se como hoje, para ver quem hegemonizava o movimento sindical. Por isso o movimento sindical acabou por ser esmagado, a república espanhola foi esmagada pelos fascistas de toda a Europa e não apenas pelas tropas de Franco. Graças a isso Estaline pode fazer o seu pacto germano-soviético, com a partilha da Polónia como prémio. Assim começou a IIª guerra mundial. O povo russo pagou bem caro a loucura do seu ditador. A destruição que sofreu o povo soviético foi muito maior porque Estaline não queria dar nenhum sinal de que tinha qualquer desconfiança para com Hitler!
As pessoas são mantidas na ignorância da história dos movimentos revolucionários, insurreccionais, porque não vão procurar as visões menos ortodoxas, aceitam com uma candura impressionante os «clichés» que são propagados pelos livros escolares de História, ou pelas cartilhas dos partidos ditos «operários».
Se nos debruçarmos para compreender verdadeiramente a realidade desses movimentos insurreccionais, vemos que eles não obedecem de forma nenhuma aos esquemas simplistas que os ideólogos propagam.
Hoje, igualmente, com a insurreição grega, passa-se a mesma coisa. Os média ao serviço do poder não explicam o contexto, apenas assustam as pessoas com imagens de «violência».

# Manuel Baptista

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